O que nos empurra para a morte não são as doenças

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E falamos com quem?

Não é apenas uma questão de estarmos doentes. Eu com as minhas calcificações a atazanar o supra-espinhoso, o Pedro Bidarra com a hérnia ali pelo L4-L5, a Eugénia com a assimetria neurológica, o Henrique espartilhado pelo fatal esternoclidomastóideo. O que nos empurra para a morte não é a dor – ah, que bom quando dói – o que nos empurra para a morte não são as doenças, nem um gajo dedicar meia-hora de inquietação aos 7,8 do ácido úrico (mais dois meses sem “sifúde”), ou festejar os 160 de colesterol total, bater palminhas, e ai que bom, aos 0,27 de PSA total de antigénio específico da próstata.

O que nos empurra para a morte é a mudança. As coisas mudam e deixamos de ser necessários a essa mudança. Todo o passado mundo maravilhoso que vivemos e aprendemos deixou de interessar aos mundos que foram vindo a seguir a nós. Lembro-me que, em 1973, a estudar em Lisboa, chegado de Luanda com uma roupinha colonial que me fazia rapar um frio do caraças, fui até à Opinião, ali ao pé da Cervejaria Trindade. Queria comprar LPs revolucionários com o dinheiro fresco do previsível estertor do colonialismo. Comprei: a) o Grand Wazoo do Franka Zappa; b) um vinil, que não sei onde pára, do John Cage, com concerto para piano preparado e orquestra de câmara; c) e do Chico e Caetano um delicioso juntos e vivos onde, além de navegarem o que era preciso, cantavam a minha canção bandeira “eu como, eu como, eu como … você”.

Mas você não está entendendo nada do que eu digo? Não, não está, e é mesmo aí que começa o grand wazoo, the big and last fuck, esse empurrãozinho para a morte que quero estoicamente abraçar. Quando comprei os três LPs, o cultíssimo vendedor (não é nenhuma ironia, era mesmo culto e gostava e sabia da poda dele – não era só vender, o gajo amava o que vendia) olhou para mim de viés e disse-me “Mas que escolha mais eclética”. Gastei para aí uns cem escudos e foi como se tivesse feito ali, com três “vinis”, um ano de psicanálise. Ele sabia o que estava a vender e topou logo quem estava a comprar.

Eclético hoje como ontem, falo, compro (eu que até nem quero vender nada), e é como se me saísse da boca um dialecto de Pago Pago. Um tipo quer trocar uma palavra sobre o abjeccionismo de Lautréamont, levantar um bocadinho a esmagadora cruz de Matthias Grünewald, pedir que alguém cante connosco una dulce copla de  Machin e ergue-se o caralho de um silêncio de alto lá com ele. Quem sabe do que estamos a falar já tem uma conta calada na farmácia e tem a agenda preenchida com as tomas dos comprimidos e xaropes. Quem logo me perceberia são os zombies de mais idade que não me querem ver, nem eu os quero ir visitar a lares suburbanos. E não há mais ninguém que saiba do que estamos a falar – nem nas ruas, nem nos restaurantes ou espaços, ou lá o que é. A ideia de história, perdeu-se. A turbulência irónica de Cletus Awreetus Awrightus, que eu vou pôr ali mais abaixo, a extraordinária organização cacofónica que Zappa lhe deu, nunca mais será ouvida. O eco que, séculos depois, faz um verso de Villon numa estrofe de René Char (ou num filme de Godard) não voltará a nenhum jornal.

A rua passa por mim e, das paredes como das bocas, só ouço queixas, vitimizações e mil direitos atropelados. Quase nenhuma palavra de acção, quase nenhuma palavra que diga “vamos fazer” ou, ainda menos, “vamos aprender a fazer”. O que nos empurra para a morte é já só nos confessarmos às paredes. O que nos empurra para morte é o silêncio dos nossos gostos, das nossas acções e do nosso pensamento.

Se tem de ser assim? Olha, antes assim do que a pílulas e injecções, antes na inútil rua do que no climatizado hospital.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a O que nos empurra para a morte não são as doenças

  1. Vasco Grilo diz:

    Grandioso Frank! Que maleita a sua ausência.

  2. EV diz:

    Enquanto escrever as paredes como bocas, o dialecto de Pago Pago não será uma língua morta. Fartei-me de gostar.

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