Os betinhos de Whit Stillman

Whit Stillman (ao princípio achei que o nome era um acrónimo de Walt Whitman; mas não, o Stillman é mesmo nome de família e o Whit é diminutivo de Whitney, do nome próprio composto John Whitney) é a minha descoberta cinematográfica do ano. Prova da minha ignorância suprema na matéria, se considerarmos que Whit Stillman realizou o seu primeiro filme, Metropolitan, em 1990 (filme cujo argumento original, do próprio Whit, recebeu até uma nomeação para Oscar), e que, de então para cá, apesar de a produção ter sido escassa (apenas mais três filmes, Barcelona em 1994, Last Days of Disco, em 1998, e Damsels in Distress, em 2011), tem sido citado – sei eu agora – como referência dos novos movie braters americanos Wes Anderson e Noah Baumbach. Ou talvez não seja assim tanta ignorância, se se tiver em conta que nenhum dos seus filmes foi distribuído comercialmente em Portugal. Culpa minha ou não, em boa hora decidiu a organização do Indielisboa deste ano dar-lhe o destaque de Herói Independente. Se uma das missões de festival como o Indie é abrir horizontes, potenciar descobertas e vencer preconceitos, Whit será um bom exemplo de alguém que tem contra si um juízo pré concebido: o de um cineasta snob, que fez filmes, apenas, sobre e para os jovens adultos da “Urban Haute Bourgeoisie” de Manhattan dos anos 80 (termo que, na Lisboa do mesmo período, teve e ainda tem o seu equivalente na categoria, talvez mais simplificada e abrangente é certo, a que se deu nome “betinhos”), e que, justamente por centrar a sua temática nas classes mais favorecidas, talvez não tenha merecido, da crítica e do público, os favores que merecia. Mas, que diabo: do mesmo modo que venerar o Padrinho de Coppola não nos faz ter vontade de nos transformarmos em gangsters, reconhecer a excelência do retrato (e que brilhantes são os diálogos de Stillman) de uma certa juventude afectada e pedante não significa que com ela nos identifiquemos ou tenhamos vontade de a imitar. Acresce que, por estranho que pareça, a Manhattan retratada em Metropolitan e Last Days of Disco (para me cingir apenas aos dois filmes que vi no Indie, os outros dois já vêm a caminho pela Amazon) não anda longe daquilo que certos jovens adultos “betinhos” viveram em Lisboa em meados dos anos 80: as mesmas conversas de escárnio e maldizer, a mesma preocupação com as companhias certas, os mesmos esquemas para entrar nas “boîtes” da moda (num tempo em que as discotecas eram, só, lojas de discos), a mesma pose estudada de quem saía à noite para observar e ser observado. E, quanto à feroz oposição entre os partidários e os adversários da euforia “disco” a que se assistiu a partir de certa altura (bem visível na parte final de The Last Days of Disco), essa teve expressão em todo o mundo ocidental e Lisboa também não fugiu à regra.

Dito isto, há ainda uma razão fundamental para me ter rendido tão facilmente a Whit Stillman. Fica em jeito de desabafo: mais coisa menos coisa, e embora tenha negado sempre o rótulo, eu também fui um daqueles rapazinhos. Concedo. Ok, mais do género de The Last Days of Disco do que de Metropolitan, se isso me serve de consolação (eu também amei para depois odiar os Bee Gees). Mas não me atirem pedras. Ver Stillman acabou de me absolver de todos os pecadilhos de betinho.

 

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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4 respostas a Os betinhos de Whit Stillman

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    As chatices que dá a um puto não ser betinho! É a vida, cada um tem de se aguentar à bronca, Agora, o Metropolitan papei-o em Tróia num dos festivais de boa memória

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, naquela idade, enquanto eu era betinho, tu eras revolucionário. Tu, tens histórias para contar aos netos, eu nem por isso.

  2. nanovp diz:

    Não vi nada Diogo…mas eu que não sou fã de disco apetece-me ver os filmes…

    • Diogo Leote diz:

      Bernardo, o Last Days of Disco não é sobre a corrente musical “disco”. Este, e a euforia que gerou à sua volta, é apenas o pano de fundo de uma certa geração. Que, por sinal, tinha os mesmos hábitos, também, de uma certa geração que, entre nós, e com ou sem “disco”, povoou os anos 80.

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