Os meus diabretes

One TouchHerdei a hipocondria do lado da minha mãe e os diabetes (juvenis, convém acrescentar) do lado do meu pai, o que faz de mim uma hipocondríaca com uma doença real. Nunca agradeci à minha avó paterna os cabelos loiros e os olhos claros, assim como o gosto pela cozinha. Por isso, achei injusto pedir-lhe satisfações sobre a doença, obviamente herdada dos Amados. Descobri que era diabética da pior forma, entrando em coma por hiperglicemia com 967 de açúcar. Quando recuperei a consciência, cedo percebi que ocorrera na minha vida algo semelhante a uma ruptura epistemológica e esse acontecimento segmentou irremediavelmente a minha existência em duas épocas históricas: a.d. (antes de diabetes) e d.d. (depois de diabetes). Há mais de vinte anos atrás, o sistema de defesa do meu corpo destruiu as células produtoras de insulina no pâncreas, tomando-as por invasoras bactérias. Numa pessoa saudável o pâncreas liberta, como se dispusesse de um sofisticado computador, a quantidade rigorosamente necessária de insulina para responder ao estímulo de um bacalhau espiritual, de uma cheesecake de frutos silvestres ou de um copo de vinho tinto, anulando os açúcares e hidratos de carbono que estes produzem, mantendo os níveis dentro da normalidade (60 – 110 mg/dl). Num insulinodependente, as injecções diárias de insulina obrigam o organismo a ir processando ao longo do dia os alimentos ingeridos de forma a corresponderem às doses dadas. O inferno é esse: não se pode ter o açúcar muito alto nem muito baixo, sob o risco de se entrar em coma por hiper ou hipoglicemia. E o meio termo, como em quase tudo, é difícil de alcançar.

Um director criativo (não, não foi o nosso triste Bidarra) perguntou-me um dia, enquanto passava um briefing : então, como vão os seus diabretes? Introduziu o “R” de real na minha doença e deu o nome certo a esta doença que sabe infernizar a minha vida. Felizmente, os meus diabretes têm um anjo da guarda. Na verdade, vários. Pertencem todos à família One Touch, como se os anjos se reproduzissem e encarnassem a evolução da sua espécie. A minha primeira One Touch era grande e quando a segurava na mão, esperando pacientemente pelo resultado da leitura da glicemia, perguntavam-me volta e meia se estava a jogar Game Boy. Demorava uns longos 45 segundos a dar o seu veredicto e ainda resistiu a algumas aparatosas quedas na rua. Hoje, quando olho para ela, só consigo ver uma espécie de dinossauro dos medidores de glicemia da Johnsons.

A One Touch Ultra é uma máquina pequena, que quase conseguiria esconder na palma da mão e lembra um Tamagoshi. Mas também há a One Touch Ultra mini, a One Touch Ultra 2, a One Touch Vita e a One Touch Verio e Verio IQ (uma inversão do QI?). Curiosamente, a tecnologia não se encontra na máquina (oferecem-na na farmácia ou nos centros de saúde), mas sim nas tiras reactivas que nelas se coloca para fazer a leitura da glicemia a partir de uma pequena gota de sangue. Tenho 5 One Touch diferentes, o que é meio caminho para não saber qual fala a verdade, como os relógios de parede numa ourivesaria, onde cada um sussurra uma hora diferente. A actual chama-se Ultra Smart e parece mais esperta do que as suas antecessoras, uma espécie de Homo Sapiens dos leitores de glicemias. Para me lembrar de que matéria sou feita, pede uma gota de sangue e profere oráculos luminosos com 2 ou 3 dígitos em 5 segundos. Ao contrário de mim é metódica, faz médias complicadas e exige explicações como “antes de jantar”, “depois de esforço físico”, “com febre” ou “em stress”. Quer perceber os resultados melhor do que eu. Logo eu, que ponho na sua boca luminosas palavras que ela não diz: 102, é melhor comer alguns quadrados daquele chocolate magnífico que está escondido na gaveta da cozinha. 304, não é boa ideia sentar-me a escrever um post, vou arrumar a estante do corredor e queimar energia. 407: é verdade: comi bolachas a mais e não te consegui enganar. 204: até agora, parece que me portei bem. E assim vou vivendo (que remédio) com os meus diabretes que, convenhamos, não são a doença mais adequada para uma hipocondríaca. Às vezes acontece acertar no resultado, por exemplo 183 ou 221, e fico desconfiada. Será que a máquina me leu o pensamento e não o sangue? Outras, penso com alívio: felizmente só tenho uma máquina para ler a vida e apenas sob o ponto de vista do açúcar. O que aconteceria se houvesse máquinas para medir o stress ou a saudade, a falta de inspiração ou a tristeza? E que amostras, tecidos, matérias pediriam para análise? Fui consultá-la agora mesmo e ela respondeu: 189. Eu traduzo: está na hora de ir jantar.

 

Sobre Maria João Freitas

Graças às palavras, às vezes sou Alice e faço perguntas sem parar. Outras, sou a namorada (platónica, esclareça-se) de Wittgenstein. Quase sempre, penso que tenho a sorte de viver da (e na) escrita. Porque escrever pode ser triste, mas é melhor que ser feliz.

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3 respostas a Os meus diabretes

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    olha que máquina linda, que até ajuda a escrever posts.

  2. Pedro Bidarra diz:

    Que maravilha de texto. E de máquina

  3. nanovp diz:

    Por instantes, atordoados oela boa escrita, até ficamos com inveja….

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