Stoned in São Paulo

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A mean stone

São Paulo, 1o de Julho 2004

No início é só uma ligeira pontada que me incomoda enquanto me sirvo de mais um café. Aqui, á altura dos ovários, se eu os tivesse, se fosse mulher. Em poucos segundos começo a dobrar-me para a frente numa involuntária saudação oriental. Como se uma longa agulha me estivesse a trespassar do rim ao umbigo. São oito da manhã e preparo-me para entrar numa reunião. Cheguei a São Paulo ontem às duas da manhã vindo de Nova Iorque e parto amanhã à tarde para Amsterdão e depois para casa. – Are you ok?- pergunta-me o Miguel, um dos Marketing VP´s que aqui está também e que com o seu farto bigode e baixa estatura parece o Sancho Pança. – Not sure, man. Not really.

O melhor é ir ver o que se passa. Caminho vacilante. Na pequena clínica do compound industrial onde nos encontramos nos arredores de São Paulo deitam-me numa cama e injectam-me uma dose de analgésico. Alivia a dor. Durante dois segundos. Para depois voltar mais forte ainda. Estou dobrado sobre mim mesmo. Larguei o fato, a gravata, a camisa e as calças. Em menos de meia hora passei de um bem-falante e penteado dirigente empresarial a um patético e pálido feto suado, trespassado por um ferro invisível, dobrado sobre si mesmo e gemendo baixinho de uma dor que parece querer partir-lhe o corpo ao meio.

Pedra no rim, oiço ao longe. Em português. Pedra no rim! Estou fodido. Estou pedrado diria. Daqui já não saio hoje. Dizem que é como a dor de parto. Afinal, o dia de hoje vou mesmo passá-lo como uma mulher. Em trabalho. Nas garras de um organismo, neste caso mineral, que força passagem por um canal de diâmetro notoriamente inferior ao seu. Alargando e rasgando sem escrúpulo tudo à sua passagem.

A pequena clinica não oferece os cuidados necessários. Ambulância. Percorro as avenidas de São Paulo na horizontal, em direcção incerta sob o efeito ensurdecedor de uma estridente sirene. A dor impede-me de raciocinar e por isso também de me preocupar excessivamente. Hospital. Radiografias e ecografias e é mesmo uma pedra. Que parece um meteorito. Desmesurado. Rugoso. Pontiagudo e assimétrico. Um calhau aglomerado de pó. Máuzinho mesmo o cabrão.

De sala em sala. Numa cama com rodas a alta velocidade. Mal consigo abrir os olhos. Sou homem e como tal sei que vou morrer. Os Néons longos no tecto que parecem as riscas de uma auto-estrada infinita em direcção ao céu confirmam-no. Dor, só dor. Que me abraça o corpo todo. Que não lateja mas está ali, enorme, estática, pousada sobre mim como um corvo negro de bico pontiagudo. Vejo agora pelo canto do olho uma agulha que me entra no braço de novo. Numa série de injecções múltiplas, o êmbolo para trás e para a frente num bombar de líquidos densos e coloridos. E depois, de repente. A paz. A maria da paz. Uma onda de calor que me abraça o útero que não tenho e me sobe até à raiz do canal da nuca que agora mal sinto. Largo um suspiro longo e profundo. Finalmente o descanso químico tão merecido. Sim. Sim. Assim sim. Sinto que flutuo embalado num suave oceano de oxycodona envolto na mortalha transparente e mais ligeira da metadona. Porque é que não tomamos isto todos os dias antes de levantar? Que maravilha. O mundo seria um lugar mais bonito com certeza. Vai ser uma noite de sonho. Vivam as pedras no rim. Digo.

Acordo. O quarto é branco, alvo. Sinto-me novo. Refrescado. Está aqui um médico jovem. Que parece o Collor de Mello, janota e penteadinho. Descreve-me em poucas palavras as minhas opções. Ficar mais um dia no hospital esperando que a pedra se decida ou voltar para casa no avião da tarde sob o risco que algo se mexa lá em cima e o meu abdómen entre de novo em trabalho de parto. Mas desta vez privado de agulhas durante oito ou nove horas seguidas. – E isso é foda! Da grossa menino! – parecem-me dizer os olhos azuis límpidos e aquosos do meu médico bonitão. Mas de foda é feito o mundo mesmo. E pois seja avião. Atiro-me para a frente sem histórias. Tem de ser.

Sento-me na poltrona business da KLM a pensar na complicada tabela química de marcha que tenho para os próximos dias. As caixas de comprimidos são cinco. Tudo a horas alternadas para não overdosar. Doses múltiplas e desiguais. Cores diferentes para diferentes horas do dia. – Se sentir uma dor não entra em pânico. Relaxa e respira fundo tá? – Eu respiro fundo. Fundíssimo. Preventivamente e intensamente desde que saí da clínica. Mas o que deve ser é e mal descolamos, descola também uma suave dor no rim direito. E com ela o pânico mais absoluto. Reconheço-a. É ela, a besta. Que quer voltar. Olho para o meu companheiro de viagem à minha direita em busca de um inútil olhar de conforto mas este enroscado numa manta prepara-se para uma sesta. Tenho pois de agir rapidamente. Peço um Burbon com gelo á pressa. Duplo. Meto na palma da mão uma amostra de comprimidos rigorosamente aleatória da vasta colecção que me passaram no Hospital. Conto tudo assim por alto. Dois dos vermelhos, dois dos azuis, um amarelo e três brancos dos pequeninos. O Burbon é suave e para baixo leva tudo sem esforço.

Fico a falar holandês.

Amsterdão à vista.     


1o de Julho – Cássia Eller – Acústico MTV

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
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Uma resposta a Stoned in São Paulo

  1. EV diz:

    Boa pedra!

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