Tenho um ombro desfeito

ressonância

Acreditem ou não este é o meu ombro muito amado

Uma coisa é certa, apesar de tudo tenho o tendão de longa porção do bicípite bem posicionado na goteira. Um atleta, dir-se-ia, se não fosse o meu gritante problema no supra-espinhoso. É, o dito, ligeiramente atrófico e heterogéneo. Esperava outra coisa de ti, meu velho músculo! A heterogeneidade é para artistas, de um certo modo para uma Amy Winehouse, de outro incerto modo para o flashante Varoufakis. A verdade é que, seja pela heterogeneidade, seja pelas alterações de base tendinosa, o ombro direito dói-me gregamente. Dói-me tanto, talvez mais do que a Zeus doeu a cabeça quando Atena, a bela deusa, lhe saiu inteira pelo divino, quase omnipotente, crânio.

Tenho saudades de alguns movimentos que o meu braço fazia. E nem estou a falar das rotações velozes dos 20 anos, do modo alegre e lábil como então coçava as costas. Pasmem, tenho até saudades dos suaves movimentos que me autorizava no dia em que fiz 45 anos. Abrir, por exemplo, uma garrafa de Barca Velha, com um modesto saca-rolhas. Eu era capaz de fazer isso – melhor, eu fiz isso. Agora, que finalmente arranjei dinheiro para um saca-rolhas sofisticado, 8 mm de uma óbvia calcificação fizeram-me dar um grito de dor e largar aflito o aparelho papa-rolhas.

Ah, mas não se pense que é só o supra-espinhoso. Mais enferrujado do que ténue, outro músculo amigo, o infra-espinhoso, denota, nas suas fibras insercionais inferiores, um vazio de sinal que indicia uma segunda calcificação, a bater já nos 10 mm. Mexo-me e é um tiro que vai direito e fulminante ao cérebro. Aiiii, digo eu. “Caruncho, meu amigo”, disse-me o meu desempenado ortopedista.

Se fosse só isso… Às alterações de tendinose cálcica da coifa (ó minha rica coifa), junta-se a distensão, moderada embora, da bursa subcromial. Os meus Tristes leitores riem-se? Haviam de ter as dores que me arrepanharam todo no dia em que me deu a travadinha de um frozen shoulder. Para que serve um “ombro congelado”, perguntam-me? Para humilhação, sofrimento, talvez penitência, de um Triste de Cristo, se assim se pode dizer. Uma cruz no ombro, a caminho do Calvário, vou ler, para que tudo esteja certo, o Livro de Job.

reeonancia a

Meu Deus, ajuda-me: será isto a coifa?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Tenho um ombro desfeito

  1. Luis diz:

    tenho duas hérnias cervicais responsáveis por uma cervicobraquialgia que me atormenta os dias (e as noites)… tudo o que uma guilhotina terapêutica pode resolver em 300 milisegundos. para a semana vou ser executado. só espero que me ressuscitem.

    • Luis, até tenho vergonha de me ter queixado do ombro. Só dando-me, a mim mesmo, com um martelo no ombro é que conseguiria rivalizar consigo. As suas melhoras, meu caro amigo.

  2. EV diz:

    Ameace o malvado, Manuel Fonseca, sem medo, diga-lhe: estou aqui, estou a fazer-te uma infiltração à Eusébio, ouviste?! Um homem tem direito a escrever sem dor, a levantar o braço, enfim, a abrir uma garrafa e tudo quanto queira – acho.

    • Pensei numa infiltração à Eusébio. Disse ao meu médico. Olhou-me com desprezo: ” Tu não és digno que uma infiltração entre na tua morada, quanto mais no teu ombro…”

  3. nunohluz diz:

    Caro Manuel,

    Não podia ter sido mais mal escolhido o sítio para ter essa lesão, seja ela consequência de maus tratos, do tempo de serviço neste mundo da articulação em causa, ou de uma combinação dos dois.

    O ombro é um abismo de chatices misteriosas, todas más, ainda que umas francamente piores do que as outras.

    Fiquei a saber isto desde 25 de Setembro de 2013, dia em que me estampei com a bike na marginal.

    Muitos médicos, osteopatas, quiropráticos e (igualmente ineficaz, mas não tanto como eu estava à espera) médicos de acupuntura e medicina chinesa depois, ainda hoje não consigo levantar o braço direito o suficiente para nadar crol.

    Boa sorte!

    (Refiro-me à gestão do problema, pois calculo que o seu desaparecimento não esteja nas cartas.)

    Um abraço,

    NHL

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Obrigado Nuno. Isto até nem está a correr mal. Estou já com uma amplitude de movimentos no braço ofendido que é de alto lá com ele. Um abraço amigo.

Os comentários estão fechados.