Uma clara evidência

Os quinze anos do Manuel S. Fonseca esperavam levitar. Ri-me, claro, também porque nele me vi a mim e, numa casa que já não existe, uma estante com uma prateleira de mistérios.

Eu tinha treze anos e os mistérios eram livros sem dono nem proveniência. Tinham acostado ali, sabia-se lá quando e por que mão – foi lá que descobri o maravilhoso catálogo do barroco dos anos sessenta-setenta do século vinte. Fosse como fosse, esperavam alinhados que o proprietário regressasse a buscá-los.

Não é exactamente um segredo que tive uma esmerada deseducação: nunca me proibiram um livro ou filme, e sou grata por isso, principalmente porque a informação fora de horas é uma escola de imaginação: o mundo deixa-se moldar, é macio no pensamento.

Pois bem. Foi ali que cacei um extraordinário tratado do desconhecido. A Terceira Visão. E o autor? Nem mais nem menos do que a alma de um lama – o português é lixado -, transmigrada para o corpo de um canalizador inglês, auto-nomeado Lobsang Rampa. É preciso ver que isto se passou num tempo sem Richard Gere, antes do Dalai Lama ser uma figura da pop culture, quando o Tibete estava em silêncio nos media e a China, mao-mao-mao, vivia o rescaldo da Revolução Cultural.

Ó mundo novo: da geografia à política e com rotunda na religião! Uau, só prodígios: clarividências, levitações, yetis, reencarnações, viagens astrais, e eu muito quieta, à noite, direitinha como um cadáver, na cama, à espera, e nada do corpo astral levantar voo como um papagaio de papel preso ao corpo pelo seu cordão de prata, raios que o meu havia de ser de chumbo. Praticava à tarde, ao fim-de-semana, nem em posição de lótus, nada. Deslarga-te! Nada.

Ninguém se interessava pelas maravilhas, nem pela política da coisa… O meu avô não se dignava a indignar-se solidariamente comigo contra a invasão do Tibete, provocava-me:
– O avô gostava que os Espanhóis nos anexassem?
– Adorava!
Nem tinha qualquer compaixão pelos meus esforços científicos, um incompreensivo, ria-se perdidamente. Pior, fazia pouco de mim.

Uma manhã em que foi levar-me ao colégio quase me fez entrar pelo espelho do carro adentro. Seríssimo. Abismado. Arrependido.
– Não quis dizer nada antes para não preocupar a avó, mas parece-me que essa mancha vermelha entre as sobrancelhas, é um olho a formar-se: o terceiro olho.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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8 respostas a Uma clara evidência

  1. A. (Ou A Senhora A.) diz:

    Eugénia, a menina cheia de histórias. 😀

  2. Ou seja, clarividência!

    • EV diz:

      Já podemos montar um número ocultista! (Ilusionismo não gosto que tenho medo de ser serrada ao meio…)

  3. riVta diz:

    Eugénia. Adorei! Li o livro há muitos muito anos e fiz a experiência. Comigo resultou tão bem que jurei nunca mais repetir. Cumpri.

  4. João Silva diz:

    Boa noite,

    Encontrei o seu blog por acaso, e também por acaso deparei com este seu post (é assim que se diz?), que faz referência a um livro de um escritor que também eu li à muitos anos, alias, toda a sua obra, não me recordo muito bem, mas mais de 10 livros sobre o tema. Já não os tenho, dei-os a alguém, que já não me lembro quem, tantos anos passaram. Mas, mais do que acreditar ou não naquilo que o autor falava, o que mais me impressionou na altura, e ainda é essa a sensação que guardo, era a franqueza com que ele falava das coisas. Digo franqueza e não honestidade porque, não conhecendo a pessoa pessoalmente, nem sendo capaz de fazer nada do que ele mencionava nos seus livros, no entanto, as suas palavras soavam-me a… franqueza. Aquela sensação que temos quando alguém fala verdade, mas que sabe também de antemão que nele poucos irão acreditar, se não mesmo zombar. É a franqueza que eu guardo desses livros, mais do que ser capaz ou não de levitar ou comunicar telepaticamente, etc. Por isso, podendo ser tudo verdade ou não, eu não sou capaz de provar ou desmistificar nada, nem me importo com isso, claro, a verdade é que a vida, tal como a vivemos, não faz sentido nenhum, tem que haver mais qualquer coisa para além daquilo que é a vida de todos os dias. E essa é a única coisa em que acredito, que de certeza a vida é muito mais do que aquilo que vivemos aqui, neste planeta. Também por isso, não zombo deste autor, que já morreu, independentemente de acreditar ou não no que dizia, até porque dos mistérios da vida sei muito menos do que ele. E não sou uma pessoa mística, gosto de ciência, mas sei que esta não explica nada da vida, para além da morte, porque não pode, e não é capaz. Mas sei que quem acredita em alguma coisa, é sempre mais forte do que aqueles que não acreditam em nada. E é nisso que me agarro. acreditar em alguma coisa. Cumprimentos.

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