A frase contra o parágrafo

Agustina

Os rendilhados parágrafos de um original que Agustina Bessa-Luís um dia me mandou

A frase cirúrgica, sonora, tão curta como definitiva, é o Hércules da escrita moderna.

Mas que raio de céu literário é esse que tira consolo de ir aos ombros do arrogante e solitário prestígio de uma frase? Pode haver literatura sem a arte combinatória do parágrafo? A minha amiga Elisa Gabbert defende a magia do parágrafo, com argumentos cristalinos, o maior e melhor dos quais é apontar para um livro e dizer: leiam! O livro chama-se “Na Minha Morte”, escreveu-o William Faulkner.

O parágrafo serve-se da palavra, precisa da metáfora e da metonímia, pede ironia ou afirmação declarativa, mas é sobretudo a forma cerimonial e artística de usar a pausa e a duração. Os olhos lêem a frase, mas por onde respiramos é pelo parágrafo, nariz e aparelho respiratório da literatura. Elisa interrompe-me e diz que cada parágrafo é um mini-ensaio, “self-contained”, ou seja, cada parágrafo é molecular. E eu, com um argumento destes, aninho-me ao colo de Elisa e deixo-me ficar.

Se lerem este artigo de Elisa, ficarão logo amigos dela, como eu. Tenho a certeza de que não deixarão também de passar a leitores regulares e dependentes da Smart Set, a revista online da Universidade de Drexel, que tem três campus em Filadélfia e um em Sacramento, na Califórnia.

jorge luis borges

Um sólido parágrafo de Jorge Luis Borges

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a A frase contra o parágrafo

  1. EV diz:

    Isto do mini-ensaio está muito bem caçado. Vou bisbilhotar esta Smart Set…

  2. nanovp diz:

    Pois fiquei curioso, vou lá também….

  3. Fatima MP diz:

    Gosto de várias escritas, depende. Mas se há dúvida que não tenho, e gosto que muito prezo, são os parágrafos da Agustina – fabulosos.

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