Arte poética, Jorge Luis Borges

 

 

borges

Um dos livros da minha vida. Já não o tenho e queria tanto voltar a segurar com estas mãos essa edição. Já a pedi na Pó dos Livros, mas é tão difícil de encontrar, dizem-me.

Tive muita sorte. Aos 17 anos, caiu-me no colo este pequenino livro. Fazia parte de uma colecção de poesia da Dom Quixote, onde se publicou a “Vocação Animal” do Herberto, pequenos volumes de Nuno Júdice e Gastão Cruz, Ginsberg e Ferlinghetti. Era a primeira vez que eu lia Jorge Luis Borges, a primeira vez que ele era, julgo, traduzido para português, num feliz encontro da sua poesia com a inspiração de outro poeta, Ruy Belo, que morava amorosamente na língua portuguesa que julgamos também falar.

Dos poemas desse livro nunca mais esqueci esta Arte Poética. A “arte poética” é esse poema em que o poeta define ou se confronta com o que lhe é essencial no poema, com o sentido que a sua escrita toma ao roçar-se pelo rumor das coisas, da natureza, do tempo, da transcendência, do universo. Voltei a lembrar-me desta Arte Poética de Borges por ter lido esta belíssima e arrebatadora arte poética da Eugénia de Vasconcellos – de que conheço alguns poemas que são dos mais belos que nos últimos anos se têm escrito em língua portuguesa, e que, por isso, merecem publicação urgente.

A Arte Poética tem a dimensão metafísica – entre a vigília e o sono – que se espera dos mistérios de Borges. É um poema de um livro de 1960, “El Hacedor”, em que Borges está na plena posse dos seus recursos poéticos e filosóficos e os goza em plenitude. Poema de rios e espelhos, em Arte Poética convivem, numa harmonia tensa e fluída, a imobilidade e o movimento, o mesmo de Parménides, o outro de Heraclito.

Este é um poema de triunfo dos infinitivos – olhar, recordar, saber, sentir – infinitivos que fazem parar o tempo. E, porém, é um poema de rios e água, da sucessão de dias e anos, que celebra a fuga do tempo, que celebra o fluxo de um tempo de que não há fuga. Borges inscreve o seu poema na tradição poética de Horácio e Virgílio. Diz-nos, corrigindo talvez Aristóteles, o que a arte deve ser, ou o que na arte deve ou pode ser a poesia. Talvez a arte esteja tão farta de prodígios como Ulisses. Talvez o poema só queira, e só possa, chorar de amor como Ulisses ao divisar a sua Ítaca. Com um léxico de uma simplicidade – diria, quase trivialidade – desarmante, Borges convida-nos a  descobrir, na humildade dos dias, essa eternidade que buscava o nómada Ulisses, como se o rosto mais humilde fosse espelho do infinito.

Arte Poética

Olhar o rio feito de tempo e água
e recordar que o tempo é outro rio,
saber que nos perdemos como o rio
e que os rostos passam como a água.

Sentir que a vigília é outro sono
que sonha não sonhar e que a morte
que a nossa carne teme é essa morte
de cada noite que se chama sono.

Ver no dia ou no ano um símbolo
dos dias do homem e dos seus anos,
converter o ultraje dos anos
numa música, um rumor e um símbolo,

ver na morte o sono, no ocaso
um triste ouro, assim é a poesia
que é imortal e pobre. A poesia
volta como a aurora e o ocaso.

Às vezes, certas tardes, uma cara
fita-nos do fundo de um espelho;
a arte deve ser como esse espelho
que nos revela a nossa própria cara.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
chorou de amor ao divisar a sua Ítaca
verde e humilde. A arte é essa Ítaca
de verde eternidade, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
que passa e pára e é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante, que é o mesmo
e é outro, como o rio interminável.

(tradução minha)
kodama

Cuentan que Ulises, harto de prodigios, lloró de amor al divisar su Itaca

Arte Poética

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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5 respostas a Arte poética, Jorge Luis Borges

  1. EV diz:

    Este poema de Borges é perfeito, nem excesso, nem falta. Esta souplesse dá cabo de mim…

    Ps: obrigada pelas bondades.

    • Nenhuma bondade, Eugénia. Os seus poemas discursivos, em particular uma selecção que eu cá sei, estão acima destes últimos anos da maior parte da nova poesia publicada em Portugal. Têm consciência do quotidiano, dos objectos, dos actos e tudo transfiguram em linguagem poética. Mas isto é conversa para se ter de outra maneira.

  2. Um poema concreto (que será feito da poesia concreta? abstraiu-se?):

  3. adelia riès diz:

    Li so agora. Lindo o poema de JLB. Esperando a publicaçao dos poemas de EV.

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