Buster Keaton

Keaton,-Buster_

Não se ria. Nunca. Nem sequer se ri o cão que lhe sai, naturalmente, da carcela das calças

Buster Keaton sabia o que era o riso. Sabia de onde ele vinha. Julgo que o riso era o sangue dele. E tal como nós não gostamos de mostrar o nosso sangue, também ele nunca mostrava o riso que tinha. Como se rir fosse – e é – Triste. Keaton preferia ver, espalhado pelas ruas, pelas salas de cinema, o riso dos outros.

Buster Keaton era, portanto, um criminoso: atacava as pessoas e não as largava enquanto não se desfizessem em riso. Fazia isso da forma mais silenciosa que a humanidade já conheceu. Não abria a boca – uma ou outra vez para respirar, sim. Não fazia esgares tão intrínseca era a impassibilidade dele. Era o seu corpo que se mexia, ganhava ritmo ou oscilava. Em velocidade, um outro salto atlético, algumas quedas inesperadas, mas sobretudo movimentos marcados por uma geometria irrepreensível. No meio da catástrofe que no cinema é a vida, Buster Keaton estava sempre no lugar certo, fosse quando lhe caía em cima uma casa, fosse no meio de uma avenida onde passassem carros a alta velocidade.

A extraordinária foto acima, publicada pela magnífica revista que é a Cabinet, é de 1930. Começava a declinar a silenciosa estrela que era Keaton. Chegara o cinema sonoro, os talkies, e pediram a Keaton, como a Chaplin, que falassem. A Keaton deu-lhe para começar a beber. Bebeu muito e o casamento dele ensopou-se em mau álcool. A mulher, Natalie, uma das meninas da família Talmadge, que ao cinema deu duas boas actrizes,  já o tinha posto fora do leito conjugal ao segundo filho. Tudo se passou, provavelmente, para que se justificasse esta outra foto sócio-filosófica que tinham feito juntos, poucas semanas depois de casarem.

Keaton.

As delícias do casamento segundo Natalie e Buster.

 

Tudo o que escrevi é só um pretexto para recomendar a leitura deste artigo da Cabinet, uma revista quadrimestral de arte e cultura de Nova Iorque: sai em papel e tem este belo tratamento online.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Buster Keaton

  1. EV diz:

    Já reparou que o mundo como nós o conhecemos está sempre a acabar? Mudo/sonoro; papel/online e o diabo… A única constante é a mudança. Gostei de tudo: texto, photos e artigo!

  2. Pois é, Eugénia, e até estamos a assistir ao fim do Império de Ponta do Ocidente e ao começo do Império do Meio do Oriente.

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