Chegou um telegrama. É de 1959

NMAH Archive Center, Collection#584
Telegrama de Duke Ellington  para Ella Fitzgerald

Este telegrama foi expedido em 1959. Só hoje é que chegou, com aviso, ao Escrever é Triste. Fui eu que passei pelos Correios a levantá-lo. Há mais de 50 anos que estava à espera de o ler.

Escreveu-o Duke Ellington, que só ouvi tocar ao vivo uma vez. Dirigia uma fantástica orquestra e tenho a memória do seu imaculado fato branco. Escreveu-o para Ella Fitzgerald que eu nunca ouvi cantar pessoalmente. Ouviu-a o Duke, que produzia um concerto dela, em Chicago, num clube nocturno chamado Mister Kelly’s.

O Duke comoveu-se apaixonadamente. Escreveu-lhe um telegrama que é como quem manda uma tonelada de rosas ou uma só rosa ardente.

Telegrama de Duke Ellington 

Querida Ella,

Que doce foi a última noite para mim. Hoje, a noite será ainda mais doce para a miudagem no Kellys. Amanhã, será dulcíssima porque amanhã volto a abraçar-te, a beijar-te, e a apreciar-te em frente a um milhão de espectadores. Toda a gente te adorou, mas ninguém te adorou mais do que eu, porque o meu era o melhor lugar da sala.

Boa sorte. Amo-te como um doido.
Duke Ellington

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

6 respostas a Chegou um telegrama. É de 1959

  1. José Amaral diz:

    Março de 1973. Estava em África, no norte de Moçambique (Montepuez), a cumprir o Serviço Militar Obrigatório. Um dia escrevi (mais) uma carta para a minha Mãe. Não me lembro exactamente do conteúdo, mas recordo-me que rabisquei umas linhas em tom jocoso e, como julgo que acontece muitas vezes “de Filhos para as Mães”, “ralhava” com ela por algo que não me tinha feito com celeridade (que capricho seria?); não tinha podido atender a uma minha solicitação com a rapidez que eu desejava, ou exigia (sem aspas…).
    A missiva foi mandada, via CTT, e nunca mais pensei no que tinha feito seguir até…mais do que um mês depois, no dia em que, eu próprio, recebi do correio, em mão, a minha carta, o que tinha escrito para ela mais do que um mês antes. Tinha vindo a Lisboa porque a minha Mãe, entretanto, tinha falecido.
    Naquele momento senti um remorso incrível e arrependi-me daquela e de muita outra correspondência que já anteriormente lhe tinha mandado para a chamada Metrópole; mas nada mais podia fazer!…

    Guardei aquela carta por mais de uma dezena de anos, até ao dia em que resolvi destruí-la. Sem a (re-)ler. E que alívio senti, ao fazê-lo!…

    Esta estória, verídica, é bastante diferente da que foi narrada neste “escrever é triste”; mas veio-me à memória este episódio e senti a necessidade de o contar, como se de uma penitência se tratasse…

  2. EV diz:

    Oh que beleza de telegrama… Eram partners in crime!

  3. nanovp diz:

    Simply beautiful!

Os comentários estão fechados.