Dockery and Son, poema de Philip Larkin

Doc­kery and Son, poema de Phi­lip Lar­kin, foi escrito em 1963 e publi­cado, com outros 31 poe­mas, no volume “The Whit­sun Wed­dings”, edi­tado pela Faber and Faber, em Feve­reiro de 1964. Como há duas semanas não temos Está Escrito, lembrei-me de repescar o que, há dois anos, escrevi sobre esse que é um dos maiores e mais pungentes poemas de Larkin. Mas é um post melhorado. Tem agora o poema de Larkin dito pela voz de Tom O’Bedlam.

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Uma vaga indi­fe­rença regis­tou o cho­que De des­co­brir quanto per­dera da vida

A ver­go­nha da vida que já tive­mos apanha-nos sem­pre. Como um camião rai­voso na auto-estrada. Ou como um poema de seis estro­fes, cada uma com oito versos.

Doc­kery and Son”, esses 48 ver­sos no final dos quais se assina o nome de Phi­lip Lar­kin, é o poema em que a vida já vivida emerge como um camião na pla­ci­dez de uma tarde que se ante­ci­pou pas­sar em anó­dino remanso evocativo.

Tal­vez este poema seja só uma con­versa. Ou tal­vez seja um soli­ló­quio que os res­tos de uma incon­clu­siva con­versa vêm encher de remen­dos. “Doc­kery and Son”, se é uma con­versa, é uma con­versa de trapos.

Um tipo – e ponham a esse tipo a cara inós­pita de Lar­kin – reen­con­tra a sua velha facul­dade. Faz con­versa de encher chou­ri­ços com o Rei­tor e, no meio do emba­raço, vem à baila o facto de estar agora ali, a fre­quen­tar as aulas, o filho de Doc­kery, um colega de que o poeta, o nar­ra­dor, ou lá quem seja para não dizer­mos que é Lar­kin, mal se lembra.

É tão vaga a memó­ria de Lar­kin, que “Doc­kery and Son” se con­verte num poema deam­bu­lante: o Doc­kery será o tipo em que a voz do poeta está a pen­sar para den­tro, um beti­nho tímido? O poeta olha para essa vaga memó­ria com des­prezo, põe-lhe em dúvida a iden­ti­dade, diminui-o, mas não o con­se­gue apa­gar: Foda-se, como é que Doc­kery já tem um filho com aquela idade? Doc­kery fez um filho quando o poeta nem se inter­ro­gava sobre a pater­ni­dade e esse filho impõe-se e mete o risí­vel Doc­kery na sua vida.

Doc­kery é uma ame­aça. A vigo­rosa e pre­ma­tura pater­ni­dade de Doc­kery força o poeta a abrir as por­tas tran­ca­das da escusa cave que é o seu pas­sado. Nunca, como em “Doc­kery and Son”, a intros­pec­ção fora um com­boio a fugir dos amplos rel­va­dos da ado­les­cên­cia e a entrar nos hor­rí­veis subúr­bios da vida adulta. E o poeta deam­bula, um verso passa a perna por cima da perna dou­tro verso e o que é se lê desse enca­val­ga­mento? Nem um filho! Quase que ouvi­mos Lar­kin dizer: Para que cara­lho é que me ser­viu a vida?

Era o que Lar­kin diria, se o seu rea­ci­o­na­rismo pes­si­mista não odi­asse os ‘sel­fish, noisy, cruel, vul­gar lit­tle bru­tes’ que são as cri­an­ças, se Lar­kin não se des­fi­zesse na dúvida em que se crispa: um filho é uma pro­messa de eter­ni­dade ou é o pri­meiro sinal da nossa extinção?

Num léxico comum, vul­gar, que um adjec­tivo som­brio ou um sobres­salto con­cep­tual pon­tu­al­mente podem ani­mar, Lar­kin veste o poema de preto e morte. Fecham-se as por­tas duas vezes. Fecham-se pri­meiro as por­tas da negra memó­ria ado­les­cente: “I try the door of where I used to live: / Loc­ked.” E depois, no mais impla­cá­vel verso da poe­sia do século XX, fecham-se as por­tas da vida: fecham-se de medo, empur­ra­das pela idade, pelo fim filho da puta da velhice.

Seguimos num comboio que vai para um cais onde não há ninguém à nossa espera.

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Não ter filho, nem mulher, Nem casa, nem ter­ras, pare­cia ainda muito natu­ral.

A tra­du­ção de “Doc­kery and Son” que se segue — azar! —  é minha. Ando a traduzi-lo há uns dez anos. Como podem ver pelo ori­gi­nal, ainda tenho mais cem anos (ou dez filhos) a penar:

Doc­kery e Filho
‘Doc­kery era mais novo do que tu
não era?’ disse o Rei­tor. ‘Tem cá o filho, agora.’
Fato de enterro, de pas­sa­gem, con­cor­dei. ‘E tens
Falado com o –‘ Lembrar-me como,
Uni­for­mes negros, sem pequeno-almoço, meio res­sa­ca­dos,
Per­fi­la­dos à secre­tá­ria dele, dáva­mos
‘A nossa ver­são’ dos ‘inci­den­tes da última noite’?
Expe­ri­men­tei a porta onde cos­tu­mava viver:

Fechada. O inter­mi­ná­vel rel­vado enton­tece.
Toca um sino do pas­sado. Apa­nho o com­boio, igno­rado.
Canal, nuvens e facul­da­des dissolvem-se
Len­ta­mente na pai­sa­gem. Mas o Doc­kery, meu Deus,
Alguém que agora ali esteja terá nas­cido
Em 43, quando eu tinha vinte e um.
Se ele era mais novo, teve o filho
Aos deza­nove, vinte? Não era ele o reservado

E engo­mado filho de famí­lia que par­ti­lhava quar­tos
Com o Cart­wright que foi morto? Bem, isto mos­tra
O muito… Ou o pouco… Boce­jando, supo­nho,
Ador­meci, acor­dando com os fumos
E cla­rões dos for­nos de Shef­fi­eld, onde desci,
Comi uma tarte hor­rí­vel, e cami­nhei ao longo
Da esta­ção para ver ao fundo os car­ris ali­nha­dos,
Juntando-se e separando-se, reflec­tindo a lím­pida lua
Desobs­truída. Não ter filho, nem mulher,
Nem casa, nem ter­ras, pare­cia ainda muito natu­ral.
Uma vaga indi­fe­rença regis­tou o cho­que
De des­co­brir quanto per­dera da vida,
Quanto me esca­para dos outros. Mas o Doc­kery:
Só deza­nove anos e deve ter pla­ne­ado
O que que­ria, do que seria capaz
De… Não, não é essa a dife­rença: tal­vez antes

Estar con­ven­cido de que devia somar alguma coisa!
Por­que pen­sa­ria ele que somar era aumen­tar?
Para mim era dilui­ção. Donde vêm
Essas assun­ções ina­tas? Não vêm do que jul­ga­mos
Ser mais ver­da­deiro ou do que mais que­re­mos fazer:
São pecu­li­a­ri­da­des que se fecham como por­tas. São um estilo
Que as nos­sas vidas trans­por­tam: hábi­tos num pri­meiro ins­tante,
De repente entranham-se em tudo o que somos

E como somos; olhando para trás, agrupam-se
Como nuvens de areia, espes­sas e cer­ra­das, dando corpo
A um filho para Doc­kery, a nada para mim,
Nada com a tutela agreste de um filho.
A vida é pri­meiro tédio, depois medo.
Usêmo-la ou não, passa,
Deixa o que algo escon­dido esco­lhe por nós,
E a velhice, e depois o irre­me­diá­vel fim da velhice.

 

Doc­kery And Son
’Doc­kery was junior to you,
Wasn’t he?’ said the Dean. ‘His son’s here now.‘
Death-suited, visi­tant, I nod. ‘And do
You keep in touch with-’ Or remem­ber how Black-gowned, unbre­ak­fas­ted, and still half-tight
We used to stand before that desk, to give
’Our ver­sion’ of ‘these inci­dents last night’?
I try the door of where I used to live:

Loc­ked. The lawn spre­ads dazz­lin­gly wide.
A known bell chi­mes. I catch my train, igno­red.
Canal and clouds and col­le­ges sub­side
Slo­wly from view. But Doc­kery, good Lord,
Anyone up today must have been born
In ’43, when I was twenty-one.
If he was youn­ger, did he get this son
At nine­teen, twenty? Was he that withdrawn

High-collared public-schoolboy, sha­ring rooms
With Cart­wright who was kil­led? Well, it just shows
How much … How lit­tle … Yaw­ning, I sup­pose
I fell asleep, waking at the fumes
And furnace-glares of Shef­fi­eld, where I chan­ged,
And ate an awful pie, and wal­ked along
The plat­form to its end to see the ran­ged
Joi­ning and par­ting lines reflect a strong

Unhin­de­red moon. To have no son, no wife,
No house or land still see­med quite natu­ral.
Only a numb­ness regis­te­red the shock
Of fin­ding out how much had gone of life,
How widely from the others. Doc­kery, now:
Only nine­teen, he must have taken stock
Of what he wan­ted, and been capa­ble
Of … No, that’s not the dif­fe­rence: rather, how

Con­vin­ced he was he should be added to!
Why did he think adding meant incre­ase?
To me it was dilu­tion. Where do these
Innate assump­ti­ons come from? Not from what
We think tru­est, or most want to do:
Those warp tight-shut, like doors. They’re more a style
Our lives bring with them: habit for a while,
Sud­denly they har­den into all we’ve got

And how we got it; loo­ked back on, they rear
Like sand-clouds, thick and close, embodying
For Doc­kery a son, for me nothing,
Nothing with all a son’s harsh patro­nage.
Life is first bore­dom, then fear.
Whether or not we use it, it goes,
And lea­ves what something hid­den from us chose,
And age, and then the only end of age.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Dockery and Son, poema de Philip Larkin

  1. EV diz:

    Estes poemas levam-nos anos a traduzir e nunca os terminaremos: é só uma desculpa para os saborearmos no pensamento, verso a verso, não é?

  2. Possivelmente entraste nalgum destes cinemas e já não te lembras:

    http://www.messynessychic.com/2015/06/17/documenting-africas-old-cinemas/

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