É aquela a vaca

 

 

derby
O homem tinha amigos que falam com Ele. Amigos que Nele acreditavam como criador de tudo e, sobretudo, como ouvinte. Ao homem intrigava a ideia de Deus por duas razões: a primeira porque nunca O tinha experimentado, a segunda porque outros o faziam com evidente satisfação.
O homem gostava de experimentar, gostava de tentar as coisas que fascinavam os outros e os faziam felizes.
— Se os fazem felizes a eles, porque não experimentar? — perguntou o homem. — Lembro-me que tarde comecei a tocar piano, e a razão para o fazer foi ver a cara feliz, e ao mesmo tempo compenetrada, de quem o fazia. “Tenho de experimentar aquilo”, pensei, e assim o fiz; em boa hora. Gosto dos outros e gosto de experimentar o que os outros gostam (com algumas excepções que não vêm ao caso) — disse o homem ao reverendo quando lhe pediu ajuda. — Deus é uma fonte de paz e prazer, de conforto e calor para tanta gente, que eu gostava de experimentar Deus. Mas é muito mais difícil que tocar piano, reverendo, já tentei e não consigo.
O reverendo fez ao homem as perguntas que são de fazer numa situação destas. E o homem respondeu com candura.
— Não me lembro de alguma vez ter acreditado em Deus — disse. — Lembro-me de estar de joelhos na cama, em casa da minha avó a rezar o Pai Nosso, a única oração que sabia, mas não era bem a Deus que rezava, era a Jesus: o Jesus barroco, de cabelos compridos e barba, que enfeita as igrejas. Mas Deus deve ser outra coisa.
O reverendo aconselhou-o a falar com Deus quando disso se lembrasse, ou quando sentisse necessidade de o fazer. Disse-lhe que esse seria o primeiro sinal. Depois, com o hábito, e falando, a seu tempo Deus daria mais sinais.

O homem tentou. A primeira vez que o fez, depois da conversa com o reverendo, foi num banho quente de imersão. Estava com febre. O banho destinava-se a levar e a lavar o bicho do corpo e, delirante como um pastorinho num descampado ao sol do meio-dia, o homem pensou: “Vou falar com Deus. Se pensei nisso agora é porque este é um sinal”. Mas Deus não apareceu. Vinha-lhe apenas aquela imagem de si próprio, menino, ajoelhado frente ao Cristo barroco pregado na parede da casa da avó; mas Deus, nada. O homem concentrou-se procurando mais um sinal. Nada. Queria uma imagem, uma cara, um som, qualquer coisa, mas Deus, a existir, não dava sinal. Chamava, falava e não obtinha resposta, e por isso calava-se. “É difícil falar com uma abstracção, com uma equação” pensava o homem.
Ainda assim não desistiu, até porque a febre também não desistia, antes pelo contrário, aumentava. No dia seguinte, sentindo-se três vezes pior, mais delirante que três pastorinhos num descampado ao sol do meio dia, o homem concentrou-se, chamou e, finalmente, apareceu-lhe a vaca do Valentim.
— “Deus dá-me lá um sinal” pedi, e apareceu-me a vaca ruiva do Valentim, sentada na erva, atirando a cara na minha direcção, olhando-me de soslaio, expectante que eu falasse. E eu falei. E ela, bovina mas curiosa, ruminou a cada palavra minha. Eu abria os olhos, fechava-os de novo e voltava a chamá-Lo, e aparecia-me de novo a vaca do Valentim. Nada mais. Só a vaca do Valentim. Até hoje, reverendo, e a febre já passou, sempre que O chamo aparece a vaca do Valentim. E eu falo com ela, e ela rumina a cada uma das minhas palavras. Será o meu sinal, reverendo? Que Deus está em todo o lado e em todas as coisas sabe-se, decorre da teoria, mas ter-se-á a Equação mascarado de vaca ruiva, só para mim? E o que quererá isso dizer? — rematou o homem perante os perplexos olhares cruzados do reverendo e da sua mulher.
— Eu sei que é o mais estranho dos sinais, mas a vaca dá-me paz.
E levou-os pela mão ao monte, onde lhes mostrou a vaca sagrada.

 

Sobre Pedro Bidarra

As pessoas vêm sempre de algum sítio. Eu vim dos Olivais-Sul, uma experiência arquitecto-sociológica que visava misturar todas as classes sociais para a elevação das mais baixas e que acabou por nos nivelar a todos pelo mais divertido. Venho também da Faculdade de Psicologia da clássica, Universidade Clássica de Lisboa onde li e estudei Psicologia Social e todas as suas mui práticas teorias. Venho do Instituto Gregoriano de Lisboa onde estudei os segredos da mais matemática, e por isso a mais emocional e intangível de todas as artes, a música. E venho sobretudo de casa: de casa das duas pessoas mais decentes que até hoje encontrei; e de casa dos amigos que me ajudaram a ser quem sou. Estes foram os sítios de onde parti. Como diz o poeta (eu): “Para onde vou não sei/ Mas vim aqui parar/ A este triste lugar.”
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

7 respostas a É aquela a vaca

  1. Pedro Bidarra diz:

    Uma coisa que me tinha esquecido de postar há dois anos, veja-se lá

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    Diria que há um lado Zoroástrico, vá lá, Hindu, a tocar o teu protagonista.E teres-te esquecido do post por dois anos é prova do teu lado zen. Ms aquela mão sobre o ombro da mulher do reverendo, pergunto-me se é do teu protagonista, se é tua?

    • Pedro Bidarra diz:

      Não haverá grande diferença. Embora aquele seja o reverendo — nada que eu não me tenha visto a fazer. mas a vaca do Valentim, essa existe, conheço-a. E aparece-me

  3. EV diz:

    Era a deusa Nut!

  4. nanovp diz:

    Ele há coisas piores a aparecerem Pedro, a vaca parece-me uma simpática aparição…

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