Freud e Cormac McCarthy

 

pacientes de freud

Voltei a ler. Quando posso. Não gosto de não poder. Mas se pensam que vou alongar-me no sofá do Tio Freud, tirem daí o sentido (desde miúdo que sonhava poder um dia dizer, com razoabilidade, a expressão “tirem daí o sentido”). Ando a ler “Os Pacientes de Freud, Destinos“, de Mikkel Borch-Jacobsen, filósofo e historiador de psicologia e psicanálise. Este senhor professor francês, que dá aulas de literatura comparada nos Estados Unidos, até me fez, ironicamente, voltar a simpatizar com Freud. Neste livro sustenta, doentinho a doentinho, que Freud, nos seus relatórios, foi bastante parcial e pouco literal, digamos assim, em relação aos tratamentos e resultados das suas práticas terapêuticas. A crer em Jacobsen, autor também do “Livro Negro da Psicanálise”, e passados em revista os pacientes, cada cavadela sua minhoca. Os tratamentos falharam, as “crises nervosas” foram de mal a pior, a dependência da morfina e da coca (julgo que era da boa) era uma constante e o suicídio não foi, necessariamente, a pior das soluções. O estendal de falhanços é tanto que, de repente, se me soltou uma ternura pelo longilíneo rapaz de Viena.

Cormac McCarthy

Li, de Cormac McCarhthy,  “Outer Dark”. Li-o na tradução portuguesa, a que Paulo Faria deu o título “Nas Trevas Exteriores“. Culla e Rinthy, um homem e uma mulher, dois irmãos incestuosos, dois rios que se cruzam, e nunca se deviam ter cruzado no começo do romance, e que vão correr paralelos, ignorantes um do outro, erráticos, no resto de um romance que Faulkner talvez pudesse ter assinado.

Não sei donde vêm as paisagens que McCarthy descreve. De que época? De que continente? É a América, sabemos. Até sabemos que é o Sul. Mas será? As florestas de pesadelo e lama, as vilórias infectas e espectrais por onde passam os protagonistas são reais ou oníricas? E o bebé tabu que nasce de um incesto e logo é abandonado e roubado, as pesadas e feridas mamas cheias de leite de Rinthy, os pés de Culla, tão depressa calafetados num par de botas roubados como descalços e hirtos de frio, essa humanidade primitiva e em ruínas vêm de que passado? Ou anunciam que futuro? Ou anunciam uma humanidade que de humano já só retivesse  vaga réstia no olhar, um mínimo léxico na voz gutural a que talvez ainda se possa chamar linguagem? Puta de culpa, horror e solidão.

Se andam à procura de experiências fortes e duras, leiam já. Não tenho o original – a versão portuguesa é muito bem escrita, de grande riqueza vocabular.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Freud e Cormac McCarthy

  1. EV diz:

    Cor­mac McCarhthy é daquela raça de grandíssimos romancistas, não é? Que prodígio de escrita. Já leu Blood Meridian?

    Fez-me rir com a sua versão longilínea do tio Freud…

  2. inma diz:

    O mesmo acontece com “Os Maias” e “A tragédia da rua das flores ” de Eça de Queirós.

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