Friné não foi sempre puta

friné

Nestes tempos em que a Europa vai tão grega e a Grécia cada vez menos europeia, lembrei-me da excelsa e clássica puta Friné. Faço notar que Friné não foi sempre puta. Nascida na Beócia, num dos cem doces anos do século IV antes de Cristo, de seu nome Mnesarete (mnes de memória, Arete, de virtude – ou seja, e para memória futura, aquela que se lembra da sua virtude), tocava flauta, o que indicia educação com certo esmero, logo e também  família com alguns meios para a providenciar.

Hoje, se a vemos, é porque um artista, o escultor Praxíteles, lhe fixou as redondas e perfeitas formas em mármore: cabelo apanhado, seios de rola, cintura suave e umas ancas de inquebrável bilha que passaram a ser as ancas pelas quais responde a deusa Afrodite.

afrodite, praxiteles

Vivia já, então, em Atenas e, além de Praxíteles, Friné convivia com artistas, pintores, dramaturgos, por certo com os melhores demagogos, um ou outro sofista. Sabe-se, ou julga saber-se, que Aristófanes, o conservador Aristófanes, autor de “As Nuvens”, terrível e cómico adversário de Sócrates, imaginativo inventor da primeira greve de sexo, que outra peça sua, “Lisístrata”, tão bem encena, julga saber-se, dizia, que Aristófanes terá pago dez mil dracmas (moeda de boa memória, também) por uma só noite com a bela, perfumada e fresca Friné.

A parada era alta e as invejas em Atenas são o que são e eram o que eram. Acusaram-na, um dia (ou terá sido pela calada da noite?), de ter profanado os mistérios de Elêusis (se a Ivone ou o Henrique, meus Tristes, não escreverem para a semana sobre estes mistérios, lá terei de voltar à carga). Na Grécia, como hoje neste planeta de mundialização, acusava-se um pessoa de qualquer coisa. No areópago, frente à douta e masculina Assembleia, Hipérides, advogado e ao que parece velho cliente de Friné, viu a adversária acusação exultante e imbatível. Usou, sem mais recursos e com apludido despudor, o seu último argumento: com um puxão libertou Friné da sua capa e desvendou-lhe o corpo, a alva e bem tratada pele, a depilada concha de hetaira (puta,sim). O gesto, que garantiu a Friné um destino nos antípodas do que a cicuta ofereceu a Sócrates, foi imortalizado, séculos depois, em 1861, no mais académico dos registos, por Jean-Leon Gêrome, pintor dizem, que até no nome já é um bom enjoadinho.

Friné retornou aos bons hábitos, à volúpia, que lhe era tão cara a ela como aos seus admiradores e, diga-se, à acumulação de capital. Corre a lenda de que aboletou tal fortuna que, face à queda das muralhas de Tebas, arrasadas por Alexandre, o Grande, propôs pagar um completo, lindo e fiel restauro. Impôs uma condição. Devia ser posto, a encimar as muralhas, um frontão em que se lesse: “Destruído por Alexandre, o Grande; restaurado por Friné, a hetaira.” Ofendidos, os tebanos rejeitaram a ímpia oferta.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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8 respostas a Friné não foi sempre puta

  1. EV diz:

    Que linda a menina Friné, nem devia tapar o rosto mas sim levantar a cabeça…

  2. Decerto sabes que Olavo Bilac, mais parnasiano que nunca, cometeu uma poesia sobre o julgamento de Frinéia… não sabe tão bem quanto uma rica prosa, mas fica o registro: https://pt.wikisource.org/wiki/O_Julgamento_de_Frin%C3%A9ia

  3. Pedro Bidarra diz:

    Bravo, bravo. Adoro lições que metam hetairas

  4. Helena Sacadura Cabral diz:

    Mulher sábia, Manuel!

  5. nanovp diz:

    Que mal agradecidos esses tebanos ….

  6. Faltou dizer o motivo pelo qual a sua roupa foi tirada…

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