LPs Malditos: Love you Live


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Tudo é um pouco estranho neste álbum, mas não necessariamente mau. Descontrolado talvez. Há uma aceleração que antecipa o descarrilamento .

Keith em guerra aberta, face a face, (ou caveira a caveira), com o seu vicio em heroína, sabendo que se for acusado no tribunal canadiano pode ser o fim da banda. Keith tinha sido preso em Fevereiro de 1977, sem oferecer resistência, no Harbour Castle Hotel em Toronto, por posse de heroína, mas a acusação pretendia elevar a fasquia a tráfico ( pois o homem consumia bastante e da boa).

Entre a limpeza das drogas, obrigatória para tentar provar a inocência, e a gravação de “Some Girls” , os Stones trabalharam na produção deste duplo álbum ao vivo que inclui concertos nos Estados Unidos em 1975, na Europa em 76 e, coincidência das coincidências, no famoso “El Mocambo” bar em Toronto.

O álbum é dedicado Keith Harwood, engenheiro de som na gravação, que tinha morrido num acidente de carro, ” drug related accident ” como aparecia na sua biografia, meses antes da publicação do álbum, em Setembro de 1977.

Havia por isso algumas nuvens, algo negras, que pairavam sobre o álbum.

A sua força resulta paradoxalmente de todos estes aspectos, alguns menos positivos, outros mais exagerados. A banda, para além do ditos Stones, é de luxo, com Ollie Brown na percussão, o grande Billy Preston no órgão e piano, juntando-se  ao piano do “sexto Stone”, Ian Stewart.

O álbum começa em força com “Honky Tonk Women” e “If You Can’t Rock Me”, mas desde logo se percebe que a dicção de Mick está muitas vezes reduzida a um grito rouco, repetido, como um uivo de cão, e a banda parece acelerada ao ponto de não conseguirem ouvir ou entender aquilo que tocam.

“Sympathy for the Devil ” é um bom exemplo disso, uma espécie de hino satânico descontrolado, onde a voz se perde nos “riffs” histéricos das duas guitarras de Keith e Ron. Longe está a hierarquia de Keith a mandar e a marcar o ritmo, e Ron a dançar dentro e fora da estrutura musical. Para muitos sentia-se a falta de Mick Taylor.

Mas depois aparece “You Can’t Always Get What You Want”, que poucas vezes foi assim tocado, tornando-se numa das melhores versões gravadas e de igual importância , por não ser comparável, à versão original.  Ron Wood, ele próprio em luta com a dependência da cocaína, tem aqui um sinal de uma possível redenção.

Também na escolha dos temas o álbum foi difícil. Mick e Keith em pouco ou nada se entendiam, antecipando a quebra de relações que aconteceria em breve. Keith sempre a puxar ao blues, Mick a olhar o seu umbigo.

Keith sai a ganhar, como na maioria das vezes, porque os  “blues” soam bem, em parte resultado de gravações no tal El Mocambo Tavern, com um ambiente muito mais delicado e intimo.

“You Gotta Move” é comparável a “Love in Vain” do álbum “Get Yer Ya-Ya’s Out” de quase uma década. Duas grandes versões de blues “standards”, que tornam os Stones naquilo que realmente são.

A capa de Warhol vem ajudar à confusão, ao caos que está presente no álbum, e terá sido Mick a riscar com caneta preta a obra do rei da Pop.

“Out of control” teria sido um título coerente, mas como sabemos os rapazes aguentaram-se, e conseguiram aquilo que queriam. Vale a pena ouvir até ao fim:”voulez vous chanter avec nous?”

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
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3 respostas a LPs Malditos: Love you Live

  1. EV diz:

    RS forever!

  2. O Honky Tonk… e o You Can’t Always… são dois monumentos da arte barroca dos Stones. Fui ouvir também o HTW live e são mesmo extraordinários…

  3. Eram tempos violentos, os antigos:

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