O sangue e o Paraíso

isis

Os que julgam sair de um verso e trazer a libertação

O que os faz correr para o Estado Islâmico? De que fogueira, de que glória vão à procura nas areias e no vento do deserto? O que os faz lavar a sangue as ruas de Mossul?

Conheci há dias Ahlam al-Nasr, jovem mulher síria bem nascida. Com o amor que é o amor de todas as mães, a mãe dela diz que Ahlam nasceu com um dicionário na boca. Conheci Ahlam al-Nasr ao ler-lhe os poemas na selectíssima “New Yorker”. Escreveu um livro a que chamou “A Labareda da Verdade”. Leio e apetece-me logo dizer que Ahlam al-Nasr é um Bob Dylan sem guitarra nem harmónica.

Ahlam casou com Abu Usama al-Gharib, violento e crudelíssimo dirigente do Estado Islâmico. Isso digo eu. Guerreiro sagrado, chama-lhe a jovem mulher síria que casou com ele, depois de fugir e recusar o consolador abraço dos pais, os prazeres de Damasco, a promessa de uma vida bem-sucedida.

Vejo-os, Ahlam e Abu, a entrarem na cidade iraquiana de Mossul, véus ao vento, jipe todo-o-terreno, a artística AK a despejar fogo festivo para o céu. Terá sido nessa noite que lhe saíram estes versos:

Perguntem a Mossul, cidade do Islão, pelos leões
– o seu combate feroz
trouxe a libertação.
Terra de glória, lavaste a ignóbil humilhação
e envergas, agora, vestes de esplendor.

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A noite adolescente de Nick Ray

Se tivessem visto os filmes de Nick Ray, se tivessem visto o nocturno preto-e-branco de “They Live by Night”, Ahlam e Abu saberiam que a noite deles é uma noite de Nick Ray. Noite de aventura e romance, noite adolescente. De adolescentes que, como os de Ray, “nunca foram decentemente apresentados ao mundo”.

Não é só poesia, interrompe-me Terrence Malick, que agora se meteu na conversa. A autêntica poesia tem sempre o umbigo atado ao crime e à subversão. E Malick aponta para os dois adolescentes que correm pelas badlands do North Dakota. Martin Sheen e Sissy Spacek eram tão novos, sabia-lhes a mel o sangue que vertiam. Sempre o sangue dos outros. Sheen e Spacek deixaram, atrás deles, o mesmo rasto de que fala Ahlam: “Deixo o meu sangue atrás de mim, Mãe, um trilho que leva ao Paraíso.”

Em “Badlands” eras tu, Terrence Malick, a incitar Sheen e Spacek ao caos primitivo, à brutalidade da mais cruel inocência. Mas quem é o realizador deste “Estado Islâmico”, que filma um Mal altruístico, que degola cabeças e contempla com prazer os corpos a arder? Poética da transgressão, cinema de autor?

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Sissy Spacek e Martin Sheen: um caos primitivo irmão da inocência.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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7 respostas a O sangue e o Paraíso

  1. O Estado Islâmico comete o sacrilégio supremo: matar, atividade humana exclusiva dos EUA e de Israel, os únicos países a quem Deus, na Sua infinita bondade, concedeu o franchising:

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Táxi, mas que alta bandeirada.

      • Pois é, e agora com os drones, o G.I. Joe pode estar na praia, na Califórnia, surfing e explodindo motherfuckers no ultramar, uma maravilha da ciência ao serviço do conforto e bem estar.
        Parece que também Deus lhes concedeu a graça de espiar. O que não se devem ter rebolado os agentes a espiar a Grande Esperança da Esquerda Europeia: Ei, Biff, lá vai o monsieur esvaziá-los na Pompadour, diriam, quando Hollande ia à pendura na sua motinha. A malta dos serviços secretos deve ser a que mais curte, porque veem a essência humana, epifenómeno só visto quando se está em ceroulas. (Espero que tenham feito gravações vídeo, não para nós, mas para os historiadores num futuro longínquo terem documentos fiáveis da nossa forma de viver):

  2. EV diz:

    Que bom texto, bem pensado… Dá gosto reler. E o alívio de já não ser adolescente e não estar já na linha de sedução dos absolutos?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Inescapável. Sonhámos todos com absolutos. É uma sorte não termos ficado soterrados.

  3. Senhora A. diz:

    “Estabeleça a seguinte missão para você mesmo: não pensar num urso-
    -polar. Você verá que o maldito troço virá à sua mente de minuto em minuto.”
    (Fiódor Dostoiévski, Notas de inverno sobre impressões de verão)
    🙂

    • O meu Dostoievsky é de uma coisinha humilde e modesta, “Noites Brancas”, as quatro noites de São Petersburgo, em que um rapaz e uma rapariga se enternecem entre eles e com as estrelas antes de chegar o urso. Não era polar.

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