Benjamin Clementine, um génio do nosso tempo (Manuel S. Fonseca courtesy)

O nosso Manuel S. Fonseca, fazendo juz à sua qualidade de referência da cultura portuguesa, já aqui tinha chamado a atenção para este rapaz, segundo ele muito bom – e nós bem sabemos que o eminente Manuel, que faz opinião em matéria de artes e letras como ninguém, não é propriamente do tipo de andar para aí a distribuir elogios a torto e a direito. Eu, na altura, devia andar assoberbado com qualquer assunto de somenos importância e não liguei pevas à chamada de atenção (a minha má educação foi tanta que nem respondi ao convite que o Manuel então me dirigiu, a mim e a outros dos nossos Tristes, para me pronunciar sobre as qualidades do rapaz). Mas agora, de silício apertado e depois de umas boas chibatadas com que me autoflagelei, redimo-me. Redimo-me gritando a plenos pulmões a mais sensacional descoberta musical que fiz nos últimos anos. Fiz eu e fez o mundo inteiro, porque nenhuma alma com um mínimo de sensibilidade pode ficar indiferente à genialidade de Benjamin Clementine. Repito: Clementine, ex-homeless senhor de uma voz colossal vinda das entranhas de uma adolescência difícil, pianista autodidacta tão ou mais exímio do que o mais qualificado dos pianistas clássicos, compositor e letrista das suas brilhantíssimas canções de solidão e desespero, é um génio absoluto, e o seu primeiro e único álbum até à data, At Least For Now, é uma obra-prima intemporal, que, depois de nós, os nossos filhos, netos, bisnetos e por aí fora ouvirão até à exaustão, estejam onde estiveram, mesmo que num planeta distante. Estou perdoado, Master Fonseca?

Sobre Diogo Leote

Longe vão os tempos em que me divertia a virar costas a senhoras que não gostavam de Woody Allen. Mas os preconceitos de então ficaram-me. O de preferir as vozes sofridas e os gritos de raiva, ou os sons negros e abafados, ao fogo-de-artifício dos refrões fáceis. O de só admitir happy ends em situações excepcionais, quase sempre em histórias de amor em que ninguém apostaria um cêntimo. O de não procurar encontrar explicação para os desígnios insondáveis da sedução ou para tudo o que não é dito, que é quase tudo, na grande arte. E continuo com esta mania de andar atrás da tristeza. Dizem os psicólogos que isso é um privilégio dos que não a têm no seu código genético. Eu não os desminto. A verdade é que, se não embirrasse tanto com a palavra “feliz”, até a usaria para exprimir o prazer que sinto ao escrever sobre almas abandonadas ou corações destroçados. Ainda bem que escrever é triste.
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8 respostas a Benjamin Clementine, um génio do nosso tempo (Manuel S. Fonseca courtesy)

  1. Qual perdoado! Estamos juntos, Diogo. O homem é um furacão.
    Agora puseste-me para ali uns pozinhos de perlimpimpim que nem acredito. Vê se te portas bem. Um abraço pelas hiperbólicas gentilezas.

    • Diogo Leote diz:

      Manuel, as minhas gentilezas nada têm de hiperbólicas: não há como não agradecer a descoberta que fizeste antes de todos os outros. Olha, e acabei de ver o rapaz ao vivo e o concerto, como se esperava, foi hiperbólico!

  2. Outro génio já confirmado nossos festivais de verão:

    • Diogo Leote diz:

      Taxi, o Benjamin não merece de todo essa provocação…

      • Não era provocação. Era posição. Sheeran é bastante apreciado pelos novos, que lhe sabiam as letras de cor quando ele esteve no Rock in Rio; os ingleses têm lhe dado prémios importantes e, visto a música ser apenas uma indústria, e mais nada, tem vendido bem. Veremos, no futuro, se a rainha lhe dá o Sir. Ele, ter aprendido a dançar para o vídeo, mostra empenho, e intenção de evoluir (além de ser um bom songwriter).

  3. nanovp diz:

    Uma voz destas já é meio caminho andado…

  4. Luís Casal diz:

    Gostei muito. retribuo com Measha Brueggergosman

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