Cheira um bocadinho a pivete (e a Grécia também)

Ia a passar pelo facebook e vi por lá, a fumar a uma esquina, este meu texto, velho de três anos. Acho que quem meteu conversa com ele foi a minha amiga Luciana. Pelo sim, pelo não, agora que, indo a votos a velha Grécia, é a Europa toda (nova e velha) que vai a votos também, não me pareceu descabido, trazer o textinho pela mão, que ele já anda um bocadinho cego, de volta a esta casa da Tia Escrever. 

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Car­na­val da Demo­cra­cia, Richard Hubal

Quem é que não sabe e repete que o Oci­dente falhou? Deca­dente há sécu­los, deca­dente para sem­pre, libi­di­noso a con­tem­plar o seu pró­prio cre­pús­culo.

Quando fui anar­quista, embora anar­quis­tas elei­tos achas­sem que eu não o era ver­da­dei­ra­mente, o desi­de­rato era des­truir o Estado, fazê-lo desa­pa­re­cer como se cada homem fosse o pró­prio Hou­dini. O Estado, per­sis­tente, infle­xí­vel, con­ti­nua em cima do palco, dando-se ares de pro­ta­go­nista. Essa anár­quica demo­cra­cia não se cum­priu.

Quando eu era mar­xista, qua­li­dade que os teó­ri­cos que ver­da­dei­ra­mente o eram sem­pre me nega­ram, tinha febre a pen­sar nessa demo­cra­cia em que, extir­pada a luta de clas­ses, Oeste e Leste se fun­diam e a todos os homens assis­tia só a frui­ção de um pra­zer sem neces­si­da­des. Lamen­ta­vel­mente, o bar­budo Oci­dente falhou a fusão a quente (ou a frio) das clas­ses e a demo­cra­cia de São Marx.

Quando fui cató­lico, de cora­ção que­ru­bí­nico a que os mais apo­ca­líp­ti­cos sem­pre apon­ta­ram insi­di­osa man­cha, deixei-me levar pelo êxtase espi­ri­tual de uma huma­ni­dade que a Segunda Vinda (fosse qual fosse a forma, fosse em pura luz ou lín­guas de fogo) con­du­zi­ria à demo­cra­cia de ple­ni­tude e Bem. Infe­liz­mente, o Oci­dente falhou tam­bém a arre­ba­tada e teo­crá­tica demo­cra­cia.

Foram esses os meus pan­ta­grué­li­cos repas­tos, mas à hora da sobre­mesa ainda me pas­sa­ram pela frente pra­ti­nhos de demo­cra­cia directa e de demo­cra­cia popu­lar. De tão açu­ca­ra­dos, nem pro­vei. Fiz con­sul­tas recen­tes aos Menus e já não cons­tam.

Resta sem­pre e só a ideia de uma demo­cra­cia imper­feita, work in pro­gress (às vezes às arre­cuas), frá­gil, insa­tis­feita, como insa­tis­fei­tos somos nós mes­mos, no amor, no sexo, na vida pro­fis­si­o­nal, na posse dos bens mate­ri­ais, na con­fu­são entre ser­mos orgu­lho­sos e humil­des, orgu­lho­sos ou humil­des. Tere­mos falhado assim tanto?

Temo, aliás, pela demo­cra­cia em que esta per­gunta, num ou nou­tro momento, não surja. Vive­mos em demo­cra­cia? Hmmm, cheira um boca­di­nho a pivete. Sim, de vez em quando cheira um boca­di­nho a pivete, vive­mos em democracia.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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3 respostas a Cheira um bocadinho a pivete (e a Grécia também)

  1. EV diz:

    Tão bem repescado… Penso que o acerto se conhece pela falha: viva a democracia imperfeita, insatisfeita, como nós.

  2. O que disseram os europeus aos Varoufakis sintetiza a democracia: ‘Está à espera que as pessoas normais compreendam questões tão complexas?’

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