De pé, famélicos da terra

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À Rita Roquette de Vasconcellos

Rita, julgava que se livrava? Julgava que eu não lhe viria pedir que cantasse comigo uma canção revolucionária, o mais revolucionário dos hinos?

Rita, eu nunca fui comunista, dessa sopa do comunismo que foi servida às famílias europeias, aos seus honestos e incansáveis operários, aos seus sensatos e graves intelectuais. Eu nunca me pus de pé, vítima da fome, para cantar em coro, armada soviética a encher os mares, esta gloriosa Internacional, de pé, de pé, multidão escrava.

Mas tenho pena. Tenho pena de não ter sido deste comunismo “revisa”, comunismo português aquecido ao sol da terra que era a União Soviética, passe embora a gelada Sibéria. Fui, saído do catolicismo terceiro-mundista, um maoista sem maoismo, fascinado pelo pequeno livro rouge, pelos guardas vermelhos assassinos que julgava (julgávamos tanto) serem uma vanguarda sem “centralismo”. Era uma maoismo parecido com o café de saco – chegava-nos filtrado por Vincennes VII, pela revistinha Tel Quel, por uns patéticos Barthes, Kristeva, Sollers, que um dia destes ainda vou voltar a ler.

É que, deixe que lhe diga, Rita, afinal eu gostava de ter cantado as seis estrofes que um francês, um trabalhador francês do século XIX escreveu, acreditando que era preciso destruir o Mundo Velho para que nascesse puro, igualitário, um Mundo Novo, onde pudesse ter tudo, quem antes nada tinha. Punho erguido, tão cerrado que nem um sopro de ar lá entrasse. Rosto oferecido ao Sol, não haveria cá salvadores supremos, nem César, nem Deus, nem Tribuno. Vamos, Rita, à luta final?

Para lá chegarmos fui buscar e ofereço-lhe um trabalho da pintora Cynthia Daignault, nascida em Baltimore, mas para todos os efeitos uma pintora de Brooklyn. Ela mostra-nos a casa – é como ela diz: deve ser este o lugar. Se já se viveu aqui, mais ainda havemos de viver.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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12 respostas a De pé, famélicos da terra

  1. EV diz:

    Maoismo, cristinianismo primitivo… mundos puríssimos: é o fruto que tenta a verdadeira idade da inocência. Depois crescemos e redimimo-nos em filmes como Lincoln. É assim.

  2. Já se levantaram:

  3. O mais revolucionário dos hinos é assim…

  4. Manuel S. Fonseca diz:

    Kitsch. Só faltava a Ciciolina aparecer em todo o seu esplendor… E a música é um bocadinho charanga.

  5. Se fosse mesmo para revolução seria assim, mas, um lugar num call center e um namorado, satisfazem as necessidades atuais:

  6. Beatriz Santos diz:

    Gostei da internacional cantada em francês e a várias vozes bem afinadinhas. É um hino de força que já não anima quase ninguém em Portugal (e talvez fora dele). Mas também gostaria de ter acreditado nele a pés juntos. Acreditei noutras coisas, que estas não me existiam.

  7. riVta diz:

    Querido Manel.Quando partimos um ovo é em primeiro lugar o amarelo que salta à vista, não é? Durante anos as claras apenas serviram para fazer crescer souflés e merengues. É às claras que devemos dar mais atenção. Obrigada por me esclarecer tantas coisas que me ajudam a ser uma pessoa melhor. Bj gd

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Rita, com esta sua notinha fiquei foi a pensar numas boas farófias! E dei comigo a pensar que em francês muitas claras dão uma “ile flotante”. É bonito, não é?

  8. nanovp diz:

    A vida precisa da Utopia e de heróis , vermelhos ou apenas humanos…

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