Eu sei onde ela mora

 

Não posso vangloriar-me: não fiz nada para isso. Nem andava à procura.

De facto, nunca pensei que o caminho pudesse estar sinalizado. Não pude deixar de me sentir desconcertada. Então põe-se assim uma seta destas no meio do nada? Da bifurcação não se via o povoado, à volta só verde e vacas, ao fundo o cinzento marítimo da ilha.

A estrada era pedregosa, o alcatrão tinha-se esquecido dela.

Depois de um bocado a andar, avisto o aglomerado de casas brancas debruadas de negro vulcânico. Ninguém nas ruas. Ouço uma carroça, um burro pequeno puxa-a, sobre as tábuas um senhor sorridente. Pergunto-lhe se sabe onde mora a senhora. Então não havia de saber!, e o sorriso mais largo ainda. Suba que eu levo-a.

Mas o burrico aguenta? Então não, mais gente viesse.

Vamos os dois na carroça, na encosta avisto a senhora. Velhinha enrugada, encarquilhada, de bibe de trabalho aos quadrados. Está a sachar os alhos, explica-me o senhor do burro, gosta muito, ela já quase só come caldos picantes, este alho pica muito, é bom.

Sabe, nunca pensei que fosse assim tão velha.

Ela? Mais antiga que o mundo, digo-lhe eu. Já o meu avô a conhecia, e o avô do meu avô já falava dela que lhe tinha contado o avô e por aí fora até lá atrás.

Chamo-a. Não adianta, diz o senhor do burro, ela é surda.

Surda ou não, a senhora volta-se lá na encosta. Mão em pala sobre os olhos, um sorriso escancarado na boca desdentada. As nuvens afastam-se para deixar passar o sol, um raio de luz sobre ela na manhã nublada.

Faço-lhe adeus, ela acena num gesto fresco de bailarina e volta a debruçar-se sobre a terra sachada de fresco.

Não é de muitas conversas, nem eu preciso realmente de lhe falar. Mas o espanto não me larga. Qual é o espanto, pergunta o senhor do burro, é mesmo como se diz: o seguro morreu de velho, mas ela há-de ser a última a morrer.

ESPERANÇA VELHA

Esperança Velha, Ilha Graciosa, foto de tc

Sobre Teresa Conceição

Ainda estou a aprender esta terra de hieróglifos. Tenho na mala livros e remoinhos, mapas e cavalos guerreiros, lupas e lápis de cor: lentos decifradores. Sou nativa de Vadiar, terra-a-terra. Escrever? Ainda não descobri onde fica. Mas parto com bússola e farnel (desconfio que levo excesso de bagagem).
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7 respostas a Eu sei onde ela mora

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Então e a Felicidade Nova? Mostra lá a seta…

    • Ando à procura, Manel.
      Mas já sei que só encontro quando deixar de procurar.
      Ou quando estiver distraída. As tabuletas nunca aparecem quando fazem falta.

  2. adelia riès diz:

    🙂 Talvez haja Esperança.

  3. EV diz:

    Tudo verdade, não há nada mais velho do que a esperança.

  4. teresafont diz:

    E eu, que tenho lá uma Casa das Dores? E explicar que nunca nada lá me doeu? Ah, os Açores é tudo muito esquisito. Gostei tanto de ver, Teresa Conceição. Um dia, vou para o Barro Vermelho pescar e não me ralo mais na vida.

  5. nanovp diz:

    “O alcatrão que se esqueceu da estrada”, só esta frase dava um livro….fiquei mais descansado agora depois de saber que afinal há mesmo uma seta a apontar uma direcção…

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