Eusébio no Panteão (ou um português africano no Panteão) *

Portuguese striker Ferrerira Eusebio enjoying breakfast in bed at the Saxon Inn Hotel in Harlow Essex where the Portugal team are staying during the 1966 World Cup in England, 25th July 1966. (Photo by Central Press/Hulton Archive/Getty Images)

Os pequenos almoços do Panteão?  (Photo by Central Press/Hulton Archive/Getty Images)

* título corrigido por sugestão mais do que acertada de Pedro Bidarra 

Eusébio da Silva Ferreira é hoje recebido no Panteão Nacional. A partir de agora, dia 3 de Julho de 2015, o Panteão é a casa de Eusébio. Na casa onde simbolicamente dormem as glórias da Nação, entra assim Eusébio, aquele que foi, em vida, o guardião de tantos símbolos, como abaixo tento explicar.

O sentimental que eu sou, mais lírico do que épico, preferia que Eusébio , corpo e espírito, morasse no Estádio da Luz. Ali, de mão dada com a multidão, a vibrar com o jogo que foi o grande jogo da sua vida, outras fintas, outros remates, a genuína explosão e alegria dos golos.

Mas reconheço à entrada de Eusébio no Panteão uma justiça poética. Quando este filho de um português branco de Angola e de uma moçambicana negra de Lourenço Marques entrar na casa onde estão presidentes, e onde está Sophia de Mello Bryener Andresen, é a memória do Império, que fomos, que recolhe também ao Panteão. Para mim, branco que vivi em África, mas sobretudo para muitos africanos, negros e mestiços, a entrada de Eusébio no Panteão é um reconhecimento de pertença a uma Nação, é o reconhecimento da glória e do contributo dele, glória e contributo em que os portugueses africanos comuns, dos mais poderosos e importantes aos mais humildes, se podem rever e identificar.

A cama de Eusébio está agora ao lado da cama de presidentes, escritores, de uma luminosa poeta, de uma genial fadista. Eusébio, na dignidade e no talento, é igual a cada um deles, ao maior de todos eles. E o Panteão passou a ser o Panteão de uma Nação que é também africana. Que a Nação, a Nação das ruas de todos os dias, a Nação da economia, a Nação da cultura, a Nação da política, siga o exemplo e o possa ser também. Nação africana, na ponta da Europa que sempre nos empurrou para o Mar.

E lembrei-me de trazer o texto que, até hoje, mais emocionadamente escrevi neste nosso Escrever é Triste. Escrito no dia da morte de Eusébio da Silva Ferreira.

eus

Eu nunca con­se­guia saber se era o seu pé esquerdo, se o seu pé direito que chu­tava.

Eusébio da Silva Ferreira, meu Deus
por Manuel S. Fonseca

Se Eusé­bio mor­reu hoje, como dizem as infa­ti­gá­veis notí­cias, mor­reu hoje o que res­tava dos meus anos 60 e o que res­tava de Por­tu­gal ter sido um império.

E embora mor­rendo hoje, como dizem as indes­men­tí­veis notí­cias, as cores do mito – esse belo negro da sua pele, esse ver­me­lho vivo da sua cami­sola – não dei­xa­rão nunca mor­rer Eusé­bio. E nem é pre­ciso dizer aqui a pala­vra Ben­fica, por­que a pala­vra Eusé­bio e a pala­vra Ben­fica beijam-se, fundem-se, são uma com­bi­na­ção amo­rosa de que a gra­má­tica tem ciúmes.

Eusé­bio era feito da mesma terra ver­me­lha dos heróis. A força de per­nas de um Hér­cu­les, veloz como Ulis­ses, o joe­lho onde Aqui­les tinha o cal­ca­nhar. Há romance, mis­té­rio e aven­tura em toda a sua vida. Vejam como, da cidade colo­nial de Lou­renço Mar­ques, o tra­zem para Lisboa.

Numa noite de tró­pi­cos, um jipe leva-o à porta do avião. Clan­des­tino quase. E em Lis­boa escondem-no da bruxa má. Tudo por­que Eusé­bio, per­so­ni­fi­ca­ção da bon­dade, fez o que um filho deve fazer, a von­tade à sua mãe. O clube onde jogava que­ria mandá-lo à expe­ri­ên­cia para outro clube. Mas a mãe, como todas as mães, deci­diu pela von­tade do filho: recu­sar vir à expe­ri­ên­cia por­que, como todos os ver­da­dei­ros humil­des, Eusé­bio sabia o que valia.

E o que valia Eusé­bio? Outros dirão muito melhor do que eu. Eu conto-vos só as minhas per­ple­xi­da­des. Eu nunca con­se­guia saber se era o seu pé esquerdo, se o seu pé direito que chu­tava. Por­que, em boa ver­dade, não era ele que chu­tava. A velo­ci­dade rema­tava por ele. E já estou a men­tir ou a enganar-me, por­que, em boa ver­dade, foi com Eusé­bio que a velo­ci­dade apren­deu a jogar à bola. Num tempo em que os car­ros tinham qua­tro velo­ci­da­des, Eusé­bio já tinha a sexta.

Dei­xem deliciar-me ver­go­nho­sa­mente no vício das minhas recor­da­ções. Estou a vê-lo, em Ams­ter­dão, ali­nhado com Águas, Coluna, Simões, antes da final com o Real Madrid come­çar. Está per­fi­lado, a cara­pi­nha cor­tada quase rente, a cabeça redonda de menino, pre­ci­o­sa­mente dese­nhada e bonita, a pele negra bri­lhante, nobre, afri­cana. E era, menino de Moçam­bi­que, o melhor joga­dor por­tu­guês. E eu tenho muito orgu­lho em que o melhor joga­dor por­tu­guês seja um afri­cano, raio de um ex-império que nem um depu­tado negro con­se­gue ter.

Nesse jogo, mar­cou dois golos, os dois, juram-me, e eu não teria tan­tas cer­te­zas, com o pé direito. Pus­kas, Gento e o semi-deus que era Di Ste­fano caí­ram aos seus pés. Eusé­bio, herói com­pas­sivo, foi ao chão bus­car a cami­sola de Di Ste­fano. Pediu-lha, a esse semi-deus aba­tido. Di Ste­fano deu-lha, con­so­lado por aquele pedido de menino, e Eusé­bio guardou-a, por­que Eusé­bio é o guar­dião de todos os símbolos.

Eusé­bio foi o pri­meiro fute­bo­lista a jus­ti­fi­car os 110 metros de com­pri­mento de um campo de fute­bol. Se não fos­sem já essas as medi­das, o campo teria de ser esti­cado. Eusé­bio comia com ale­gria metros de relva. Eusé­bio era um bicho dos gran­des espa­ços, uma pan­tera que que­ria savana. Foi com ele que o fute­bol des­co­briu que a África existia.

Cor­ria em linha recta ou em elipse, fazendo meias-luas, rápi­das mudan­ças de direc­ção, rein­ven­tando a velo­ci­dade, baixando-a, subindo-a. Percebia-se assim, final­mente, por que razão um campo de fute­bol deve ter 75 metros de lar­gura, uma área de 8250 metros qua­dra­dos. Cor­ria e nas per­nas dele cor­ria a pala­vra Ben­fica. Mas tam­bém a pala­vra Portugal.

Foi em 1966, não dou novi­dade nenhuma a nin­guém. Mas vejam outra vez as cores do mito a pin­tar Eusé­bio. Houve um sor­teio dos núme­ros das cami­so­las. Saiu-lhe o 11, ao peque­nino e mara­vi­lhoso Simões o 13. Simões que­ria jogar com o seu habi­tual 11 e, com a ver­dade, deu a volta a Eusé­bio: “Já viste o que é, se joga­res com o 13 e fores, como vais ser, o melhor mar­ca­dor e o melhor joga­dor do mundo?” E foi, com esse número que poderia ser fatí­dico, com esse número da fei­ti­ceira Circe, o melhor mar­ca­dor, o melhor joga­dor, o Melhor. As cores do mito, os núme­ros do mito, escolhem-no, querem-no como filho dilecto.

Vi o segundo golo dele ao Bra­sil num filme exi­bido no cinema Impé­rio, em Luanda. Uma obra de arte gigan­tesca em que potên­cia e explo­são se enla­çam. Um golo que ajo­e­lhou o Bra­sil, esse impé­rio romano do fute­bol. De novo e sem­pre as cores do mito: com esse golo, aos pés ala­dos de Eusé­bio, caía Pelé, uma lança espe­tada no flanco.

No jogo com a Coreia do Norte, Eusé­bio car­re­gou, como Hér­cu­les, o mundo aos ombros. Ainda nem a meio da pri­meira parte íamos e a Coreia, aba­lando a ordem do céu e terra, de mares e ares, ganhava por três a zero. Eusé­bio recons­ti­tuiu minu­ci­o­sa­mente a ordem do mundo, todo o uni­verso. Agar­rou nos des­tro­ços e com per­se­ve­rança jun­tou as par­tes. Cor­reu, dri­blou, foi atin­gido vio­len­ta­mente, mas triun­fou. Qua­tro golos foram os tra­ba­lhos de Eusé­bio nessa tarde de gló­ria que aca­ba­ria, dias depois, nas lágri­mas de Wem­bley, momento mais bonito, mais lírico ou ele­gíaco do que qual­quer vitó­ria. Lágri­mas de Eusé­bio que a cami­sola de Por­tu­gal reco­lhe e esconde. Nenhum outro gesto, outras lágri­mas, pode­rão ser tes­te­mu­nho de mais amor.

Mor­reu, a 5 de Janeiro de 2014, Eusé­bio da Silva Fer­reira, meu Deus.

eusebio

A pantera quer o quê? Savana, está claro.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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13 respostas a Eusébio no Panteão (ou um português africano no Panteão) *

  1. M. Cecília Raposo Magalhães diz:

    Eu, muito lamento mas não posso estar mais em desacordo. Há pessoas , com mais razões para estarem no Panteão !!
    E , quanto a mim estão a torná-lo um cemitéri….
    Há limites
    Também vivi muitos anos em Angola , mais precisamente em Luanda , e não é uma questão de racismo
    E, já agora “parece” ser ilegal, mexerem num corpo, um ano depois… Só a partir de dois anos …..
    Mas, este País virou em “salve-se quem puder”!!!

    Cecília Sant’ Ana Godinho Raposo Magalhães

    • Manuel S. Fonseca diz:

      É que não estamos mesmo de acordo, Cecília, e olhe que, como bem digo acima, eu até preferia o Eusébio a dormir um vibrante sono de justo no Estádio da Luz.

  2. EV diz:

    Se o Panteão precisa de alguém é de quem nos fez tanto bem e tão felizes, e claro, exactamente o que diz: o reconhecimento de pertença a uma nação.

  3. Pedro Bidarra diz:

    Fizeste bem em mostrar-me esta viagem vista de outro lado. Vista de África e com os olhos de português que lá nasceu. Que viagem, de Lourenço Marques, à Graça.
    Diz a Wiki que Graça é um conceito teológico definido como um dom gratuito e sobrenatural dado por Deus para conceder à humanidade todos os bens necessários à sua existência e à sua salvação. Diz o Houaiss que Graça é favor ou auxílio gratuito outurgado por Deus a determinados homens que a ele, por si sós, não teriam nenhum direito pessoal e que os eleva a uma destinação sobrenatural.
    Eusébio, de Lourenço Marques à Graça.

  4. JD diz:

    Amália deve estar radiante…

  5. Eusébio devia ser enterrado no Estádio da Luz, na sua posição em campo, tal como os outros, Coluna, Torres, Costa Pereira… todos, enterrados, no estádio, na posição que jogavam em campo

    https://www.youtube.com/watch?v=dHr6SASU5cc

  6. Beatriz Santos diz:

    O panteão democratizou, mas é um cemitério na mesma. Mas pronto, é uma honra para os vivos, que aos mortos – quase de certeza – tanto lhes dá o lugar dos seus ossos; a mim agrada que repousem à beira da pureza de água fresca de Sophia.

  7. nanovp diz:

    Os mortos estão em todo o lado, ou pelo menos onde sentimos a falta deles…

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