Love Goes to Buildings on Fire

blogNova Iorque. Início dos anos 70. A cidade está à beira da banca rota. A criminalidade completamente fora de controle. O desemprego a níveis altíssimos, o consumo de heroína a expandir-se como um vírus pela classe média e o LSD, que alimentou as aspirações de inocência da década de sessenta, é agora uma droga perigosa de baixíssima qualidade. O amor livre e as suas promessas progressistas passaram a pagar-se e a custar caro. A música, essa, parece estar também morta. Soterrada. Os três J’s, Jimi, Janis e Jim, mortos com ela. Nem Beatles nem Velvet Underground. O Bob Dylan emigrado para a California, o R&B a tornar-se num melaço açucarado, o Jazz a perder-se numa cacofonia post-Coltrane sem rumo nem graça.

 E no entanto, no meio deste aparente no man’s land musical, estava a acontecer algo de novo.

Nas catacumbas dos prédios devolutos de um Bronx empobrecido e esquálido, miúdos sem guita com nicknames como Kool Herc e Grandmaster Flash organizavam festas de bairro colando bocados de LP’s de vinil e criando beats sincopados completamente novos. Grupos como os Afrika Bambaata, começavam a trazer para a música a dura cultura gangster dos bairros degradados da cidade que viria a estar na origem do hip-hop e da rap music.

Mais para baixo, em Manhatthan, os The New York Dolls agarravam no Rock ‘n’ roll e partiam-no em pedaços essenciais, tudo empacotado num drag-que-se-fodam-todos, entrando para o mundo através das portas abertas pela criatividade de Andy Warhol e abrindo por sua vez outras aos que estavam para vir, os Television, os Suicide, os Ramones, os Talking Heads e o resto das bandas do CBGB’s que em meia dúzia de meses fariam explodir pela cidade uma cultura irreverente, punk, feita de uma música pret-à-portez, essencial e contida nos meios, mas não por isso menos influente sobre tudo aquilo que se viria a fazer nas décadas seguintes.

Entretanto na Village, no coração boémio da cidade, chegados de fresco de New Jersey, Patti Smith e um simplório mas muito dotado Bruce Springsteen, seguiam a senda de Bob Dylan, combinando poesia e música fazendo com uma força inteiramente nova algo viria a ficar para a história da música popular americana.

Nos lofts de Tribeca, Philip Glass e Steve Reich, imaginavam um novo mundo, um mundo onde composições de base clássica se podiam misturar com jazz, rock, música africana e indiana, produzindo um minimalismo inebriante só possível de obter no coração taquicárdico desta NY falida e empobrecida.

Também em Downtown, miúdos como David Mancuso e Nicky Siano preparavam-se para conquistar os gostos da recém-libertada comunidade gay, com um som festivo e glamoroso a que chamaram Disco Sound que mais tarde viria a alegrar as noites brancas do Studio 54 e por a conquistar todo o tmundo.

Ainda no South Bronx, Willie Colon e os Fania All Stars relançavam aos poucos a música de Cuba e das Caraíbas sobre a forma de uma Salsa fresca e eléctrica, transformando com isso o South Bronx na capital mundial da música Hispânica de vanguarda.

Por fim, espalhados um pouco por toda a cidade, do Harlem a Battery Park, músicos de todas as partes do mundo seguiam as pistas lançadas por Miles Davis, libertando, electrificando e sintetizando o free-jazz, fazendo-o explodir em múltiplas direcções para trás e para a frente da história do Jazz.

Love Goes to Buildings on Fire é em livro uma riquíssima crónica da cidade de Nova Iorque e das suas inúmeras cenas musicais no período de 1974 a 1977. Relata a incrível e surpreendente criatividade e capacidade de inovação de uma geração de músicos improvisados e desenrascados que influenciaram sem o querer nem saber, tudo o que se faria dali para diante. Abençoados sejam.

Talking Heads – Love – Building on Fire, 1977

 

Television, Marquee Moon, 1977

 

Sobre Vasco Grilo

Quando era rapazola dei demasiadas cabeçadas com a minha pobre caixa de osso. Hoje, como deliciosa consequência, encontro a minha razão intermitente como uma rede WI-FI, sem fios nem contrato fixo. Por vezes suspeito que a minha alma seja a de um velho tirano sexista e sanguinário, prisioneiro no corpo perfumado e bem-falante de um jovem republicano. Mas talvez eu seja só é um bocado sonso. A cidade para onde me mudei no final do século passado chama-se Aerotrópolis. Daqui partem todas as estradas e para aqui todas elas confluem. Em seu redor e para minha sorte, está um mundo que é grande e ainda muito comestível. Creio que a verdadeira felicidade possa causar uma certa tristeza. E por isso e só por isso, aqui, escreverei.
Esta entrada foi publicada em Está Escrito. ligação permanente.

3 respostas a Love Goes to Buildings on Fire

  1. O início dos 80 não foram melhores, inflação 13,6 %, taxas de juro 21 %, a coisa começou a mudar quando uma equipa EUA de amadores venceu o Exército Vermelho no hóquei em gelo nas Olimpíadas de Lake Placid em 80, foi um balão de orgulho numa nação deprimida, depois foi excesso, excesso, que o perigo nuclear pairava no ar. Contrariamente aos EUA, não se espera que alguma criatividade especial surja em Portugal, quando o business as usual recomeçar depois deste interlúdio para eleições, a não ser, talvez, mais um disco de Tony Carreira. A nossa bancarrota é tão linda como a revista, não há nada para queimar (os buildings melhores estão vendidos aos chineses):

    https://www.youtube.com/watch?v=6co2VDNNCPs

  2. nanovp diz:

    É preciso distanciamento para podermos entender o que realmente se passa…a receita de Manhattan e Nova Iorque é a densidade…são muitos em pouco espaço…tem resultado bem…

  3. Luís Casal diz:

    densidade sim den+cidade

Os comentários estão fechados.