Mortos a voar ou uma história de amor

 

 

 

 

Marc Chagall O Aniversário, 1915 óleo sobre cartão 80,6 x 99,7 cm New York, MoMa

Marc Chagall
O Aniversário, 1915
óleo sobre cartão
80,6 x 99,7 cm
New York, MoMa

-mortos?

-sim, é o que diz o comissário…

pegou no casaco, sentiu-lhe o peso e a humidade peganhenta.

-esse sacana, não sabe distinguir um corpo de um embrulho de papel pardo…

Chovia, a rua estreita um espelho triste e cinzento de reflexos.

-parece que já chegaram os abutres, apontou para o grupo de jornalistas, numa amálgama de guarda chuvas escuros, à entrada de um prédio igual a todos os outros, agora com uma história para contar.

-manda essa malta embora, diz que mais tarde haverá uma declaração.

Sentia-se cansado, a noite mal dormida, tinha de deixar de fumar, e os whiskys não ajudavam. Não percebia o que se estava a passar com M. Cada vez mais distante, e cada vez maior a vontade de estar com ela.

-saímos daqui por uns tempos …ver o campo , ou até o mar…O que dizes?

Subiram ao andar, a porteira, figura encarquilhada que mais patrícia uma sombra, galgava apressadamente os degraus à sua frente, repetindo que nunca tinha acontecido algo parecido naquele prédio, mas que tinha pressentido que havia qualquer coisa de errado com aquele casal.

Sabem sempre tudo as putas das porteiras, pensou, esmagando o cigarro na parede amarelecida, sob o olhar incriminador do seu assistente…

-o que queres que faça? Pareceu dizer com os olhos tristes.

O apartamento era estranhamente inundado por uma luz clara e suave, ofuscante até, surpreendente e contrastante do hall de escadas sombrio e decadente a cheirar a mofo e peixe cozido.

Sentiu a presença do amor como se fosse um ar espesso que rodopiava pela casa.

-eu ouvi barulho, saltos e passos a correr, e depois o estrondo dos tiros. Esse estrondo que ainda oiço…

-sim , sim , já lemos a sua declaração, e não desapareceu mais nada ?

– o que queria que mais tivesse desaparecido? Não lhe chega que os corpos não apareçam…

-hão-de aparecer…hão-de aparecer…

Olhou a janela e acendeu mais um cigarro.

Pensava continuamente em M. Era verão. O seu vestido liso, pendurado por duas alças finas, os pés descalços sobre o chão de madeira, as pontas dos cabelos na boca, por detrás de um sorriso disfarçado.  Estava farto daquele trabalho e farto do mundo, dos criminosos, das salas de interrogação mal cheirosas, do seu chefe com aquele bigode ridículo, das porteiras que sabiam sempre tudo, das ruas sujas e do cheiro a mijo na noite quando voltava para casa.

-hão-de aparecer, repetiu e voltou a fechar a porta do apartamento.

Mas nunca apareceram.

Alguns meses depois, já longe,  leu uma  pequena notícia num jornal da terra. Uma testemunha tinha aparecido. Declarava que  tinha visto os corpos a sair do prédio, ensanguentados mas hirtos, levantados do chão como se estivessem a levitar, na direção do porto e do mar.

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência. Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra. Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data. A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach. De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro. A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.
Esta entrada foi publicada em Museu das Curtas. ligação permanente.

4 respostas a Mortos a voar ou uma história de amor

  1. EV diz:

    Que boa frase, Bernardo! “esse sacana, não sabe dis­tin­guir um corpo de um embru­lho de papel pardo…” Não sei se não a roubo.

  2. Manuel S. Fonseca diz:

    A ascensão de corpos ao céu é um fenómeno muito comentado e documentado. Não sabia é que eram tão dúcteis.

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