O Banqueiro Anarquista

 

 

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Se ao banqueiro anarquista de Fernando Pessoa lhe desse agora para sair das páginas do livro e andar aqui a passear-se pela realidade, será que o reconhecíamos? Se víssemos esse banqueiro, bem vestido, a  sair da limusina, à porta da sede do Banco, Avenida da Liberdade em brasa, o aroma do rio Tejo longínquo mas ainda sensível, saberíamos que era ele?

E se o banqueiro saiu mesmo das poucas páginas do conto filosófico de Pessoa? E se ele andou por aí a desfazer ficções sociais e entre essas ficções sociais a mais marcada de todas, a ficção do dinheiro?

Dou-lhe a palavra: “Pois foi este o processo que eu segui. Meti ombros à empresa de subjugar a ficção dinheiro, enriquecendo. Consegui. Levou um certo tempo, porque a luta foi grande, mas consegui. Escuso de lhe contar o que foi e o que tem sido a minha vida comercial e bancária. Podia ser interessante, em certos pontos sobretudo, mas já não pertence ao assunto. Trabalhei, lutei, ganhei dinheiro; trabalhei mais, lutei mais, ganhei mais dinheiro; ganhei muito dinheiro por fim. Não olhei o processo – confesso-lhe, meu amigo, que não olhei o processo; empreguei tudo quanto há – o açambarcamento, o sofisma financeiro, a própria concorrência desleal. O quê?! Eu combatia as ficções sociais, imorais e antinaturais por excelência, e havia de olhar a processos?! Eu trabalhava pela liberdade, e havia de olhar as armas com que combatia a tirania?! O anarquista estúpido, que atira bombas e dá tiros, bem sabe que mata, e bem sabe que as suas doutrinas não incluem a pena de morte. Ataca uma imoralidade com um crime, porque acha que essa imoralidade pede um crime para se destruir. Ele é estúpido quanto ao processo, porque, como já lhe mostrei, esse processo é errado e contraproducente como processo anarquista; agora quanto à moral do processo ele é inteligente. Ora o meu processo estava certo, e eu servia-me legitimamente, como anarquista, de todos os meios para enriquecer. Hoje realizei o meu limitado sonho de anarquista prático e lúcido. Sou livre. Faço o que quero, dentro, é claro, do que é possível fazer. O meu lema de anarquista era a liberdade; pois bem, tenho a liberdade, a liberdade que, por enquanto, na nossa sociedade imperfeita, é possível ter. Quis combater as forças sociais; combati-as, e, o que é mais, venci-as.

E dei a palavra a quem, pergunto eu? Ao banqueiro que mais monologa do que dialoga na ficção de Pessoa ou a um banqueiro que, com dois pés na realidade de Lisboa e de Portugal do último ano, que tivesse vencido (ou incompreendido, fosse até preso) as “convenções sociais”?

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a O Banqueiro Anarquista

  1. Olha que excelente exercício, Manel. Retirar o homem das páginas de outrora e pô-lo nas ruas (ou nas prisões) de agora.
    Que vantagem esta que temos e tanto ignoramos: está tudo escrito, basta procurar o livro certo e a vida está lá toda escarrapachada.

  2. EV diz:

    A ficção terá criado a realidade?

  3. Acho que Pessoa enganou-se quanto à génese do banqueiro retratado neste conto, aliás um dos seus melhores.
    A origem do banqueiro que quer ser, ou ter sido anarquista, foi uma bem mais simples e que se resume ao banalíssimo ditado popular que diz que, quando não se pode vencê-los juntamo-nos a eles.
    Quem no seu perfeito juízo quer ir pelo caminho mais longo? Quem não gostaria de ser um anarquista puro, dos que matam, subvertem a ordem, assassinam costumes, desobecem a tudo e todos?
    Mas até estes actos, ou não actos, são per si, uma obediência a que o anarquismo não se pode subjugar.
    O banqueiro anarquista é assim um homem que como todos nós precisa de ordem na sua vida, precisa de ser regulamentado.

  4. nanovp diz:

    A realidade é mais estranha que a ficção…

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