O coração do caçador de borboletas

Entre os meus mil e um pecados, o diz que disse não está. Não por qualquer mérito moral, apenas por carácter: não só não me interessa como me entedia ouvir falar de gente que não sei quem é, não quero saber, mas tu sabes quem é, é não quantas, filha de não sei quem que andou com o… Não sei de quem falam e se vagamente calculo de quem se trate, não tenho paciência, repito, não tenho o menor interesse, quero lá saber, façam o que quiserem. Mas desamparem-me os ouvidos.

No entanto, tudo da vida me interessa. Nem a coisa mais insignificante me chateia. Sou bem capaz de memorizar com os olhos a mulher que entra na frutaria e de lhe perceber na postura os fios dos pensamentos, o lado amolgado da alma e o prazer que colhe na ponta dos dedos a escolher dois pêssegos caros demais para a carteira de plástico. Tudo da vida me interessa e a tudo dou atenção que é só uma forma de amar com o intelecto. E levo esse amor para a frase, o verso onde o tu se faz eu, onde a empatia se desfaz para dar lugar à comunhão: sinto com o teu coração. É assim.

Talvez haja alguma perversidade em pegar na vida de carne e ossos e sangue e em levá-la para a ficção, ora mais ora menos poética; talvez haja perversidade em fixar a vida nas palavras, mas prefiro pensar que nada disto se passa ao gosto vitoriano da caça às borboletas presas em quadros como o que havia lá em casa, e as borboletas num mistério de conservação a atravessar gerações. Seja lá como for, um fim de tarde, há meia dúzia de anos, ou pouco menos, fui passear o cão, e do arbusto ao lado do passeio, tantas borboletas, um tornado delicado de asas azuis em minha volta, tudo azul escuro dos pés até por cima da minha cabeça, quase me assustei, dezenas e eu estátua, e de repente desapareceram no arbusto.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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7 respostas a O coração do caçador de borboletas

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Dos pêssegos às borboletas, belo texto. Muito.

  2. JD diz:

    E eu que andei convencido – desde uma “matiné” em Luanda- que “Só as borboletas são livres”…

  3. nanovp diz:

    As borboletas são bem mais interessantes…

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