Muhammad Ali

 

Capa AliEste é um livro de tesouros. Não se fica mais rico com estes tesouros, mas fica-se mais leve, mais bailarino, mais comovido e com um grande poder de soco. A capa está aqui em cima e nem toda a gente reconhecerá logo Muhammad Ali. Mas é sobre ele e com coisas dele que a editora inglesa Carlton Books fez este livro, que Ali “fully endorsed and authorised“, ou seja, a que as poderosas mãos de Ali – Cassius Clay da minha infância – deu a benção.

Ali papel vegetal

O livro tem uns espectaculares 31 cm de largura e um belos 26,5 de altura: uma consistência elegante. A lombada, que segura a capa e as páginas, tem 3 cm, mas a lombada do miolo só tem 1 cm. A razão é simples: entre as 66 páginas carregadas de esplêndidas fotografias e esparso texto, irrompem carteiras e envelopes em papel vegetal que contêm “as recordações” de Ali – um bilhete da cerimónia de encerramento dos Jogos Olímpicos de Roma de 1960 ou, como se vê na imagem acima, as 18 páginas A-4 do primeiro contrato profissional que Ali (e o pai e a mãe de Ali por só ter ele 18 anos) assinou com o Louisville Sponsoring Group.

Ali o bilhete

Com o entusiasmo de um taxista de Las Vegas a conduzir-nos ao MGM Grand em dia de fightnight, são páginas de suor e glória que nos levam até à abertura titulada “The Fight of the Century”. E é no meio dessas páginas, noutra delicada carteira em papel vegetal,  que está o folheto de capa e 8 páginas com tudo o que um dia quisemos saber sobre a fight of the champions que opôs o compacto Joe Frazer ao perfil handsome do que já então se chama Muhammad Ali.

Ali o punho

O texto deste “The Official Treasures of Muhammad Ali“, livro impresso numa tipografia chinesa, claro, termina com esta fotografia que Ali tirou em Chicago. Vemos o seu punho fechado, poderoso, a avançar para a câmara que são os nossos olhos. E não tememos. Estranhamente, não há violência nos punhos de Ali. Este mundo do boxe, pelo menos o mundo de Ali que este livro mostra, é quase um mundo de Fred Astaire, de coreografia e corpo em movimento. Supunho que os cuidados que Astaire dedicaria aos pés, os apoios de Ali dar-lhos-iam às mãos, que acariciavam, massajavam, envolviam com mais ligaduras do que Maria e Marta puseram a Lázaro. É, por isso, que a delicadeza das 20 ou 30 carteiras ou envelopes em papel vegetal está tão formalmente certa neste livro de murros e ganchos. Joe Frazier disse do seu combate com Ali: “Atingi-o com socos que teriam deitado cidades abaixo.” Caem cidades, mas não cai Ali, bambu ou vime que só procura a brisa de uma noite de Verão, rei do mundo um dia, a quem uma só coisa arreliou para toda a vida: quem é que, em Louisville, tinha ele 12 anos, lhe roubou a sua bicicleta. Se soubesse, se um dia tivesse apanhado o larápio, Ali ter-lhe-ia dado uma valente coça. Afinal, era uma boa biclicleta.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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5 respostas a Muhammad Ali

  1. EV diz:

    Quero um livro assim para o meu rico Eusébio!

  2. nanovp diz:

    Há qualquer coisa verdadeiramente humana na força de um soco…defesa, controlo, poder, raiva…

  3. Pingback: Muhammad Ali: hoje há boxe no céu | Escrever é triste

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