O microfone da Gulbenkian

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Um anfiteatro perfeito

Hoje fui assistir a um concerto do Jazz em Agosto. Noite quente, ar livre, e uma bela interpretação de um original Great Lakes Suites pelo quarteto de Wadada Leo Smith, a acumular heranças do jazz de vanguarda pontuadas por esparsas linhas mais melódicas e clássicas.

Antes, ainda os músicos não tinham chegado, rebentou um dos projectores. Veio, claro, uma funcionária proceder à limpeza. Houve umas tímidas palmas à performance. Depressa se calaram envergonhadas. Podia não ser politicamente correcto.

Lembrei-me, então, das sessões de cinema no Grande Auditório. As centenas de filmes que lá vi eram precedidos por uma apresentação do João Bénard. Ele falava, os mil espectadores bebiam-lhe as palavras e batiam-lhe palmas. Ele descia as escadas e entrava pela esquerda baixa um funcionário que vinha recolher o microfone. Escusado será dizer que a sala vinha baixo com nova salva de palmas. E o funcionário agradecia, divertido. Quem é que ainda se lembra desse ritual que durou anos? E quem seria esse extraordinário funcionário que se converteu numa vedeta, transformando o que começou como anedota num caso de genuína empatia com o público? O mundo já foi mais divertido.

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A velha sala de João Bénard

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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8 respostas a O microfone da Gulbenkian

  1. adelia riès diz:

    mais divertido e mais livre 😉

  2. Jose Amaral diz:

    A Gulbenkian continua a ser uma das poucas Ilhas Solenes deste País; os Funcionários mantêm-se solícitos e eficientes; os Espectáculos têm qualidade, mesmo sem as preciosas intervenções do João Bénard; O Povo, esse já não é o mesmo; e não anda feliz!…

  3. EV diz:

    Quando as pessoas se preocupam menos com o que podem pensar delas fazem uma vida melhor, para si e para os outros – não é à toa que o pescoço de Narciso era marmóreo, eu-eu-eu, nem o nome da ninfa apaixonada Eco…

  4. nanovp diz:

    Que pena ter perdido este ano esse clássico que é o Jazz na Gulbenkian… e são pequenos episódios desses que completam a vida, que por vezes parece tão séria e arrumadinha.

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