Ora, ora…

A CARNE SUSPIRA MELHOR

Sonho contigo um sonho desperto,
todo acordado,
quero lá eu saber da dinâmica dos afectos,
da diáfana fantasia,
quero o dia-a-dia
em passos concretos,
aqui uma vírgula, ali um ponto final,
corta um parágrafo,
jantamos no quintal?
já viste o preço das caçarolas Le Creuset,
não vou comprar, puseste a cebola?
Assim. O trabalho. A cozinha.
A tua boca na minha.
Cheirar-te o pescoço.
Um amor essencial
com fundamentais eu e tu,
coisa de bicho com muita alma,
coisa de pensamento e de pele,
memória de céu aberto de estrelas
e luz e preto entre elas.
Só percebo este amor
que chega via sentimento –
amor de Adélia Prado sem Pessoa dentro.
O amor entendimento, conceptual, não ama,
não é de palavra, mesa e cama,
é uma elaboração mental,
nem tem corpo nem tem sexo,
tem questão de identidade sexual
e discussão de género e papel,
nenhuma história de cordel,
é ali entre o eu e o eu,
uma experiência intelectual
que se partilha
via cartilha.
Ora, ora,
cartilha, não.
A carne suspira melhor.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.

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7 respostas a Ora, ora…

  1. “Pensamento e pele” – alitera e é verdade. Gostei muito deste seu poema de triunfo da carne e do quotidiano sobre o conceptual.

  2. Fatima MP diz:

    Gostei mais do que muito, Eugénia. Gostei muitíssimo. Como em geral acontece em relação aos seus poemas. Porque há neles uma componente racional que se bate verso a verso com a poética e, no final, as duas se saem muito bem. Esperamos por mais.

    • EV diz:

      Olá Fátima,

      que coisa bem caçada essa de uma com­po­nente raci­o­nal se bater verso a verso com a poé­tica. Não tinha pensado e é capaz de ser mesmo isso: obrigada.

  3. A. diz:

    Ai ai… Também suspirei quando li… 🙂

    • EV diz:

      Sabe o poema “Casamento” de Adélia Prado? É isso, é tudo o que deve ser, o poema e o casamento. 😀

  4. nanovp diz:

    Soube bem ler, com os pés bem assentes na terra…a sentir.

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