Porque deixámos de gostar de poesia?

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Um poema não serve para nada se não servir para nos emocionar. A razão para os escrever, a razão para ler poemas é, sempre foi, apenas uma, desencadear emoções. Ou, como disse Baudelaire, para “encantar”. É o que, num belíssimo artigo, Poetry As Enchantment, diz agora Dana Gioia, ele mesmo um poeta californiano, de ascendência italo-mexicana – um belo cozinhado, claro.

“Encantar a realidade ordinária” foi o programa que Baudelaire proclamou para essa arte que, já existindo oralmente, criou até a escrita. E Gioia afirma que foi esse carácter primevo que os grandes poetas sempre defenderam ao falar de poesia, mas nem sempre é, o que tantos mal-entendidos provoca, o que entendem muito professores de literatura. Arte da lembrança e experiência espiritual que, pelo ritmo, se embrulha com a música, quem mais e melhor responde ao poema é quem se lhe entrega em inocência e ingenuidade. Sem prejuízo das análises profundas, da teoria literária, o que o poema nos pede, afirma serenamente Gioia é que, ao lê-lo, confiemos (traduzo eu à minha maneira) “nos argumentos da nossa experiência, nas alusões míticas, nas analogias históricas, numa narrativa íntima, e que as temperemos de amorosa (amadora) antropologia e psicologia.”

Foi o que, diz o nosso amigo Gioia, fizeram grandes poetas como Ezra Pound ou Yeats. Como Jorge de Sena, digo eu. E se hoje a poesia é tão impopular – não é Mr. Norton? – é também por ter começado a ser demasiado “bem ensinada”. A subtileza e os recursos teóricos de análise, o abandono do sentimentalismo e da moralização a favor de uma racionalização de grande rigor teorético, levaram a poesia por caminhos que a afastaram do encantamento baudelairiano. Escreveu Oscar Wilde: “Há duas maneiras de não se gostar de arte. Uma é não gostar. A outra é gostar-se racionalmente.”

A premissa é discutível? Vale a pena ler o artigo que vem publicado na revista escocesa de poesia The Dark Horse, cujo número comemorativo do 20º aniversário se reproduz, com muito gosto, acima.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Porque deixámos de gostar de poesia?

  1. A. diz:

    Uma pessoa que não gosta de poesia, é incapaz de amar verdadeiramente. 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Peut-être bien qu’oui, peut-être bien que non. Mas que se ama mesmo a si mesma, lá isso…

  2. EV diz:

    Boa revista, bom artigo, bom post!

    Ps: e não poderemos castigar Mr. Norton? Assim tipo, fazermos uma antologia dos nossos mais desgostados poetas e poemas e obrigá-lo a ler word by word?

  3. nanovp diz:

    como diz a autora do artigo “Poetry recognizes the mysterious relationship between dream and reality”, se tentamos tudo dissecar vamos perder essa a relação, inexplicável e muitas vezes irracional…

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