Rugas Precoces

beck

Gosto das rugas na música, das mãos calejadas. Sentir o tempo no som, o tempo da repetição, da dedicação. O peso da guitarra que se dobra nas costas.

A sensação de uma maturidade, mesmo que precoce, de quarenta e cinco anos.

Em causa o último álbum de Beck, “Morning Phase” (embora de 2014), onde  gosto de sentir o tempo da gravação, o cuidado do apuramento da produção. A sensação de que já tinha feito algo parecido, no também ele colossal “Sea Change”, rodeado de muitos dos mesmos músicos.

Repito, a sensação de uma maturidade, paradoxal, de quarenta e cinco anos.

É uma música que se precisa de ouvir vezes seguidas. É uma música que necessita de um ouvido atento e interessado, há sons que só se entendem na quarta ou quinta passagem: de repente uma melodia de piano que antes não estava, ao fundo um grupo de cordas que se esconde por detrás de uma linha de baixo. É todo um universo que se vai criando entre a audição e a memória que nos fica suspensa em melodia, em ritmo. Aos poucos transforma-se e é já parte da nossa realidade.

Até a ouvir de novo. Como um vício.

Quem toca e compõe assim não pode fazer mais nada na vida. E ainda bem.

 

 

 

Sobre Bernardo Vaz Pinto

Não conseguiria nunca ser bailarino actor ou cantor sem aquela coragem segura que lhes permite não desfalecer sob os olhares escondidos de qualquer audiência.

Prefiro esconder-me sob uns traços gordos de um lápis de lâmina macia, em fundo branco de papel, acarretar a velocidade lenta de uma qualquer construção que se faz colocando pedra sobre pedra.

Ou passar tempo a decifrar, agora por detrás destes óculos de vidro, caligrafias de ficção e poesia, que acabam por aparar a nossa existência, e até moldá-la, abrindo portas a novos sonhos e realidades que não vislumbrávamos até à data.

A música. Negra, principalmente riscada nos pântanos de new orleans, e no fumo gelado do south side de chicago. O jazz num solo de Baker, o Miles de pés e mãos marcadas pelo tempo e pelos abusos num concerto em Tokio onde a língua falada era mesmo a música. E Bach. E sempre Bach.

De resto, pouco mais, entre a vontade de sonhar a vida e o sonho de vivê-la. O olhar da estrada que passou que ilumina o caminho incerto do futuro.
A vontade de expelir para fora o ar que nos fica preso cá dentro.

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4 respostas a Rugas Precoces

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Obrigado Bernardo. Muito bom de ouvir.

  2. EV diz:

    Não conhecia, Bernardo, que bonito.

    • nanovp diz:

      Um dos fenómenos desta nossa “contemporaneidade” é que podemos gostar e ouvir apenas um ou dois trabalhos de um artista…tudo para dizer que não me identifico muito com muitos dos álbuns de Beck…mas este e Sea Change são muito interessantes…

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