Primeira epístola à igreja dos cabeçudos

PRIMEIRA EPÍSTOLA À IGREJA DOS CABEÇUDOS

Que é lá isso de ser crescido
e contar sílabas, cantar sílabas,
engolir dicionários e regurgitar
a palavra rara, a tal palavra cara
que justifica as despesas de educação,
a altíssima formação
em falta de pensamento,
e a reverência aos balões de vento…
Cuando era niña, escribía como niña,
pensava e razonava como niña.
Pero cuando me hice mujer
dejé de lado la escritura de niña.
Ó grandíssimos cabeçudos,
címbalos,
a desfilar uns para os outros,
ding, ding,
ninõs,
e nas margens da vida
o aplauso de quem nem sabe
para que servem as mãos –
é triste esta merda, ou não?
Quem ama não se deixa aplaudir,
puxa para dentro, traz para o centro,
abraça.
Sabes, lá ao fundo,
a terra seca de meter dó
espera-te a ti e a mim
debaixo deste céu azul mais imaculado
que o manto da Virgem Maria
e onde a luz desce a pique:
cega-nos o coração e seca-nos a boca
tanta verdade:
as covas rasas, nem uma erva,
a maré baixa de flores de plástico,
nem uma alma, nem uma lágrima,
a terra seca de meter dó e de se comer
pó e morrer o futuro.
Que é lá isso de desfile, cabeçudo,
címbalo, ninõ mío,
a vida,
para contarla bien, hay que amarla bien.
A língua dos anjos e dos homens
é de um alfabeto de amor.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Primeira epístola à igreja dos cabeçudos

  1. Que belo alfabeto amoroso.

  2. A Senhora A. diz:

    Já estava ansiosa… Que lindo!
    A Eugénia sempre escreve o que eu preciso ler.

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