A rosa de Henry Miller

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A rosa de Miller: Anaïs Nin

O mundo do sexo é uma universidade aberta. Ainda hoje, se os Estados brasileiros de Pernambuco, Mato Grosso e Maranhão são para mim paisagens inesquecíveis, isso deve-se menos a visitas turísticas que não fiz, do que às lúbricas associações que a minha turma do 1.º F lhes emprestava, enquanto espreitávamos as sonhadoras pernas das sotoras, tinham os meus 10 anos acabado de entrar no Liceu Salvador Correia. Lição interdisciplinar, aprendi que nada impede a descritiva aproximação de geografia e anatomia.

Há uma liberdade na linguagem e no pensamento que, hélas, o cinema não reproduz. Um bidé, por exemplo. É um objecto inestético e o cinema não o consegue filmar. Um bidé atravanca a casa de banho e mata a mais rasteira hipótese de um travelling. Ora, sem o bidé, a escrita de Henry Miller teria ficado mais pobre.

No “Trópico de Câncer”, numa tarde de domingo, o narrador conhece Germaine no Boulevard Beaumarchais. Sabe ao que vai. É evidente que, até no seu bom coração, Germaine é “puta desde o berço”. O centro da cena, diga-se, não é o quarto esquálido e o comércio humano. O que encanta é Germaine quando se senta no bidé e se ensaboa. A literatura pode autorizar-se a descarada intromissão da mais prosaica realidade.

Disse prosaica? Devia ter dito humilde e limpa realidade. O narrador ainda está de “boxers” e a mulher francesa lava-se por baixo, elogiando-lhe essas cuecas americanas très chic!, e cito, “Quando se levantou para se enxugar, ainda falando amavelmente comigo, deixou cair de repente a toalha”. A ternura da cena está em Germaine, a dar palmadinhas leves em si própria – e sim, é aí mesmo que dá palmadinhas, sussurrando palavras carinhosas à sua florescência.

O cinema filmou o banho e o sexo e erotizou até a casa de banho, mas numa erotização entre o vápido e o sápido. Americano ou europeu, o cinema não nos oferece a solitária e desprendida intimidade, a humana confiança de duas pessoas despidas que buscam um pouco de calor uma na outra, como neste Miller. Há umas camas quotidianas em filmes franceses dos anos 50 e no Antonioni da “Cronaca di un amore”. Nada se compara à gloriosa trivialidade de Miller: “Havia Germaine e havia aquela sua roseira. Eu gostava das duas separadamente e gostava delas juntas.

cronaca

A cama quotidiana de Antonioni

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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6 respostas a A rosa de Henry Miller

  1. Ah, mas ‘Cronaca di un amore’. Ainda bem que o Manuel me confirma que o filme existe, cheguei a pensar que o tinha inventado. Era cama de assassinos, não era assim tão trivial, pois não? Bem se calhar era. Na ideia destas coisas, há sempre a morte de alguém. Mas a Lucia, à porta do Scala, gelada apesar das caríssimas e sumptuosas peles. Sei que é um comentário fora do texto. Mas gostei muito do texto. E de tudo.

    • Teresa, mas uma cama de assassinos é uma cama trivial. Ali se vive, ali se morre.
      E é claro que o filme existe. Vi o Antonioni todo na Cinemateca e fiz o catálogo do ciclo a que ele veio assistir. Foi dos cineastas mais divertidos que conheci na Cinemateca,

  2. EV diz:

    A poética do erotismo de Miller é uma revolução estética!

  3. José Augusto Duarte Ferreira diz:

    Por ordem ascendente, os estados brasileiros são: Pernambuco, Belo Horizonte, Mato Grosso e Maranhão. Andei no 1º A… Kandandu.

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