Afinal de onde vêm os migrantes e quais as razões?

Continuo a ler e a ouvir que a guerra do Iraque está na origem da atual ‘invasão de sírios’. É uma teoria que me irrita particularmente. Por que não se invoca a primeira guerra do Iraque em 1991? Também se diz que a CIA é responsável por isto tudo. Mas penso que devemos responsabilizar a causa que levou à criação da CIA em 1947, ou seja a II Guerra Mundial! E nesse caso onde estão as responsabilidades de Hitler? Ou, provavelmente, dos judeus? Sim, que estavam judeus a fazer na Alemanha? Terá sido devido à invasão árabe de Jerusalém? Os árabes vieram de Damasco, na Síria portanto, no séc. VIII? Ou terá sido a invasão romana da mesma região no séc. I a.C.? Ou ainda a primeira diáspora judaica, quando houve o cativeiro da Babilónia no séc. VI a.C.? Afinal a Babilónia é onde é hoje o Iraque. Sim, parece que por ali há confusões há muitos, muitos anos e poderemos ter teorias idiotas para todos os gostos.

Mais a sério, vejamos de onde vêm os migrantes. Socorro-me do ‘The Guardian’ – na verdade, 50% vem da Síria e são, na maioria refugiados. Os restantes são quase todos migrantes económicos. 13% vêm do Afeganistão; 8% da Eritreia; 4% da Nigéria (aqui há refugiados dos ataques do Boko Haram); 3% da Somália; 3% do Paquistão; 3% do Iraque; 2% do Sudão; e ainda de muitos mais lugares em percentagens pouco significativas. Associar isto à guerra do Iraque é lunático.

Depois, há a crítica de que os países vizinhos não entram no esforço. Seria bom verem este mapa:

mapa

Só na Turquia há quase dois milhões de sírios e no Líbano mais de um milhão. Na Jordânia são 629 mil e no Iraque quase 250 mil. Mas quantos vêm para a Europa. Aqui socorro-me de Hans Rosling, um conhecido especialista em estatística consegue colocar tudo em termos muito simples. Vejam o vídeo:

Penso que, apesar do vídeo ser de Junho passado e de agora podermos multiplicar por dois, por três ou por quatro, não atingimos senão uma pequena parcela do drama dos Sírios. É isto que deixa tanta gente nervosa? É estranho, não. Em 1990 a Europa integrou 1,2 milhões de refugiados dos Balcãs. Depois da II Guerra o Ocidente acomodou 15 milhões. De acordo com a ONU há 59,5 milhões de refugiados no mundo. Apesar do que Juncker, Merkel e outros líderes quase impuseram, temos uma Europa de muros e arame farpado graças a países que ainda há pouco forneciam refugiados ao Ocidente: República Checa, Eslováquia, Roménia e, sobretudo Hungria, onde o líder Viktor Orban não é sequer digno de pertencer à União.

O mundo mudou. A consciência política dessa mudança foi apenas em 2001, quando as Torres Gémeas foram destruídas por fanáticos. A consciência económica deu-se em 2008 quando rebentou a bolha do crescimento contínuo das economias. A consciência social está agora a alterar-se. Mas, seja porque parâmetro for, é nosso dever aceitar os refugiados e os migrantes económicos. Também não vale o argumento egoísta de que já temos pobres suficientes. Os migrantes não querem caridadezinha. Querem viver. E todos os ensinamentos sejam eles judaicos, cristãos ou não religiosos, nos dizem que devemos fazer aos outros o que gostaríamos que nos fizessem a nós. É assim no Levítico, no Antigo Testamento; é assim no Novo Testamento na Parábola do Bom Samaritano; é assim em Kant no primeiro dos Imperativos Categóricos: age como se a tua ação pudesse ser erigida em lei universal. É assim na Carta das Nações Unidas e na Convenção de Helsínquia sobre os refugiados, aprovada há 64 anos em Helsínquia.

É assim!

(adaptado de uma crónica no Expresso Diário de 11/9/2015)

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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7 respostas a Afinal de onde vêm os migrantes e quais as razões?

  1. EV diz:

    Já fazia falta um bocadinho de bom senso! “Querem viver.” A chave para entender a situação é essa. E iludir isto é uma canalhice. Estou com a história do Iraque e o discurso de extrema direita pelos cabelos…

  2. Henrique, concordo em quase tudo consigo, discordo apenas, ou melhor, questiono a raiz do problema que dá azo à crise dos refugiados a que se refere. Isto é, sendo, como no gráfico que apresenta, a maioria dos refugiados sírios (50%), a vaga certamente está relacionada com guerra que o ISIS protagoniza naquela região e quem chega ao continente europeu está a fugir da guerra de terror que o ISIS implanta. A questão do Iraque, e que aborda na primeira parte do texto, é para mim relevante; como é a Síria e a interferência que o mundo ocidental teve – e aqui talvez a culpa foi um erro de calculo dos analistas – ao apoiar os rebeldes na luta contra Bashar al-Assad, uma vez que os rebeldes não tinham capacidades logísticas para se apoderar do poder e em vez disso criaram uma fragmentação do poder e criaram as condições para que o ISIS, a partir do Iraque, começasse a apoderar-se do vazio criado pela guerra na Síria. Não atribuo à guerra do Iraque a consequência da crise dos refugiados sírios mas questiono a prematura saída das tropas (essencialmente norte-americanas) do Iraque, saída um pouco intempestiva num país que se encontrava dividido – como ainda está – pelas várias facções existentes.
    De resto, estou completamente de acordo consigo.

    • Henrique Monteiro diz:

      As consequências dos atos é uma das coisas mais difíceis de prever. Olhe a primavera árabe…

  3. adelia riès diz:

    Ainda bem que escreve sobre este tema. Cansada da xenofobia ambiente. A ignorância mata.

  4. Henrique, és a minha bússola política. Clarinho e sustentado.

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