Deita-se um livro na cama de Pessoa

Não vos vou cansar com as camas que Pessoa não teve ou que, não as tendo, teve mais do que camas alguém teve. O livro, “Minha Mulher, a Solidão” (ou será que se chama “Conselhos a Casadas, Malcasadas e algumas Solteiras”?) há-de conversar convosco sobre isso. Agora, neste prometido diário de um editor, já só quero contar-vos a aventura que é fazer um certo tipo de livros – o que os franceses chamam um “beau livre”. Julgo que, entre cafés, disse ao Ilídio Vasco – recordo que é ele o designer da Guerra e Paz – que a sexualidade de Pessoa me parecia “desmanchada” e que ainda não sabia como é que isso teria o seu equivalente nos materiais do livro. Virei-me para o outro lado e quando voltei a virar-me para ele, o Ilídio, que já tinha ido e vindo à nossa tipografia, em Braga, mostrou-me esta solução:

costura à vistaVermelha e desmanchada, estava ali a solução gráfica que eu teria sido incapaz de sonhar. É, explicou-me ele, uma lombada com costura à vista. O livro vai ficar preso apenas por um fio. Basta um fio como já bastou a Ariadne. Este vai ser o “livro desmanchado de Pessoa”. Irreverente como eu queria. Uma combinação gulosa do Ilídio com a briosa Publito, a tipografia de Braga que tem feito a esmagadora maioria dos nossos livros, e em particular os nossos livros mais exigentes.

spread traição

Não vou ter o papel que queria. Sonhei com um papel grosseiro, rugoso, com uma textura que se calhar nunca existiu, mas vou ter, e já estou a abrir o jogo aqui em cima, dois tipos de papel Munken 150 gramas – um mais branco, outro mais amarelado. Ou seja, com as tonalidades que estão a ver ali em cima. Nas spreads que levam os destaques dos textos de Pessoa, essa variação vai reforçar ainda mais, achamos nós, o contraste entre o vermelho e negro que já não sei se fomos roubar à estética dos futuristas russos ou só a um título de Stendhal.

casamento

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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2 respostas a Deita-se um livro na cama de Pessoa

  1. EV diz:

    Quanto mais o olho, mais gosto!

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