Duas mulheres querem bem que se lixe o Pessoa imortal

ana vidigal

Fotografia de Ana Vidigal. Luz, uma mesa de trabalho, materiais, pintura, colagem e Fernando Pessoa escondido no escuro, mais escuro

A Ana Vidigal está como Fernando Pessoa – em estado mediúnico! Chegam-lhe vozes do além e as mãos dela tocam na fímbria dos heterónimos, derivam por uma velha fotografia de Ofélia. Talvez encontrem um bilhete perdido numa gaveta. Se têm dúvidas, se não vos basta a imagem que está ali em cima  e querem saber mais, isso é sinal de que precisam mesmo de ir aqui.

Recordo que este mal amanhado editor que sou, para um livro (uma antologia digamos) de Fernando Pessoa, convocou a artística intervenção da pintora Ana Vidigal e da poeta Eugénia de Vasconcellos. O que estará, agora, Eugénia a fazer com Pessoa? Ouço-os falar. Ele diz-lhe:

Ah, mas tu não me amas por uma razão pura. O que tu amas é o lar que eu te darei – eu, o marido, o filho que vier, a casa, o arranjo da casa, a companhia que faremos um ao outro, os amigos que, casal, teremos… (…) Vê como somos diferentes!

(Acreditem ou não, foi Fernando Pessoa lui-même que disse isto)

E logo ouço a voz poética de Eugénia a contar a Pessoa o que, antes, ela-mesma,  acabara de dizer à vizinha:

o teu marido ainda enfia os olhos cheios de dedos
no decote da miúda do segundo andar —
é bem mais nova do que a vossa filha**

Está a fazer-se um livro. Faz-se sozinho. Divaga pelas casas alheias. Uma mulher pinta, outra escreve: para um livro que ainda não existe. Não querem, nenhuma dessas duas mulheres, saber para nada de um Pessoa imortal. Querem, nas nódoas do quotidiano dele, rimar as nódoas do nosso quotidiano.

** versos de um poema de Eugénia de Vasconcellos, contendo intempestiva irrupção do real e um dispositivo discursivo falsamente prosaico.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Duas mulheres querem bem que se lixe o Pessoa imortal

  1. EV diz:

    E de que é feita a imortalidade se não for de quotidiano? Já o meu rico Caravaggio se fartou de plasmar isso pelas telas e paredes…

  2. riVta diz:

    a true work in progress

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