Em Português, e que Deus nos livre, se faz favor, do Novo Acordo

EM Português

Em Português, Se Faz Favor, fotografado por Roy Ayres.

Sem a língua, sem a linguagem falada, sem a linguagem escrita, não pensaríamos. Pensamos o que a nossa língua nos permite e deixa pensar. Podemos, diria que devemos, querer que a língua nos ajude a pensar o novo. Há uma arte combinatória a que a língua dá latitude, dá margem, e que faculta novas associações, a irrupção de novos conceitos,  de enunciados originais. Mas só reinventa a língua quem tem a consciência de como ela deve ser bem utilizada, do que nela é simples e complexo, do que nela é esqueleto e flexibilidade.

Há uns bons anos, e por essa via mafiosa que é a rede familiar, pude falar com o Helder Guégués, cujo blog (e ainda não era este Linguagista) muito me impressionara. Convidei-o, em boa hora, a colaborar com a equipa da Guerra e Paz. Escuso de dizer que comprei – como qualquer Padrinho – duas coisas nesse encontro: o pesadelo de uma implacável crítica e, sempre que me sujeito a beijar-lhe a mão, a segurança de me saber a salvo das mil calinadas e mil e um perigos mortais a que a língua portuguesa está sujeita.

O trabalho destes anos, os dois admiráveis blogues que Guégués assinou, justificam o livro que agora se publica. Fizemos ao Helder uma oferta que ele não podia recusar e ele aceitou criar um guia de 280 páginas em que faz várias coisas:

  • ataca os erros mais comuns praticados no uso da língua;
  • esclarece algumas das confusões mais frequentes;
  • passa em revista questões de género, numerais, modismos, pronúncia e conordância;
  • dedica 30 páginas aos tremendos problemas de ortografia.

O livro chegou às livrarias. E chegou às minhas mãos. E eu tremo a cada entrada. As minhas pretensões de escrever superiormente em português arrastam-se agora por becos escusos e escuros. A cada página, a cada entrada deste livro, tapo os olhos de vergonha. Podem ser pequenas, mesmo pequeníssimas falhas, mas a qualidade da expressão, a estética a que, por exemplo, este lúdico Escrever é Triste pretende ascender ficam prejudicadas sempre que essas falhas acontecem.

O guia que Guégués escreveu não é um guia qualquer. Dá-se ao trabalho de dialogar. Fala com a imprensa portuguesa, fala com os tradutores, fala com os autores. Menos pelo gosto espúrio de fazer um requisitório, do que pela necessidade de passar pela prática actual da língua, mostrando que há erradas convicções generalizadas a cair no melhor pano. Não são erros medíocres de autores medíocres. E isso põe-nos de sobreaviso. A mim, diz-me o que nem Jorge Jesus me disse: “Se queres continuar a jogar na equipa principal, vê lá se voltas aos treinos.” Em Português, Se Faz Favor é, com a sua capa verde, um belíssimo relvado. Para treinos exaltantes, com um treinador de humor cortante. Vale a pena, é um porto de abrigo. Longe do atroz Novo Acordo.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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4 respostas a Em Português, e que Deus nos livre, se faz favor, do Novo Acordo

  1. llopes49 diz:

    Aqui está um bom Livro para ser usado nas Escolas,pode ajudar a acabar com o Eduquês.

  2. EV diz:

    Ainda não tenho este, mas até ao fim da semana terei! Estou muitíssimo curiosa…

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