Está a nascer mais um Pessoa ou isto não fosse o diário de um editor

Os textos concertam-se como se tivessem sido escritos para estar juntos no mesmo livro. Assina-os Pessoa, Álvaro de Campos, Bernardo Soares. Tanto faz que sejam prosa ou poema. Há neles o mesmo sopro de desejo e negação do desejo. No fim de cada parágrafo ou de cada verso há uma mulher e não há mulher nenhuma, ou talvez só haja a ideia (a Forma platónica) da Mulher. Mulher maiúscula e impossuível.

Este Pessoa tem de ser feito, disse eu ao meu designer gráfico, o Ilídio Vasco. Sabemos que vai ser um livro grande, capa dura, um cartão espesso. Título gravado em cartão, com lombada de pano, propôs-me ele. Que sim, disse eu, e apontei para o grafismo soviético dos anos da ardente e comunista revolução. Estamos outra vez de acordo e nasce o lettering para o nome do autor. Vai ficar assim:

Mulher-1_webres

São textos de Fernando Pessoa em que se aconselham mulheres. Num deles, Pessoa – ou será Bernardo Soares? – propõe-se ensinar às mulheres como trair os maridos em imaginação. Como reage hoje o olhar feminino à poética misoginia de Pessoa? Não posso editar um livro destes sem ter outros olhares. Vou namorar duas artistas para se casarem com o meu Pessoa. Digo isto e minto. É que já falei com elas e ambas me disseram que sim. A Ana Vidigal, com mais gentileza do que Lídia sentada à beira do rio, ao pé de Ricardo Reis, acaba de me dizer que sim – só quer, claro, ler os textos. Criará um original para este livro. E, agora mesmo, a Eugénia de Vasconcellos diz-me que a voz de Pessoa se confunde na memória dela com a voz da sua mãe e que explicará esse vocálico paradoxo num texto-poema que vai escrever. Estou que não me controlo para que leiam e para ter na mão a pintura da Ana, o poema da Eugénia.

Voltei à sala do meu designer. Eu disse-lhe que o livro é a preto e branco, mas para o miolo quero um pantone vermelho. E ele, que ficou às voltas com o Rodchenko e com as ideias de agit-prop com que eu o atazanei, já me mudou o lettering do Pessoa. Afinal, o nome do autor deste livro da Guerra e Paz Editores, vai ficar assim:

Mulher-2_webres

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
Esta entrada foi publicada em Post livre. ligação permanente.

12 respostas a Está a nascer mais um Pessoa ou isto não fosse o diário de um editor

  1. E não sei se ficamos por aqui, meu caro editor. A noite ainda é uma criança e estou capaz de burilar mais qualquer coisa até as luzes dos candeeiros dos clubes nocturnos se apagarem. Aguardemos que o dia nasça.

  2. Luís Casal diz:

    Essa ideia de ligar a Agitprop ao Pessoa é um bocadinho estapafúrdia, não será melhor pensar outra vez?

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Tem toda a razão, Luís Casal, mas que é que se há-de fazer, tenho sempre a esperança de que, como já não sei quem dizia, primeiro se estranhe, mas depois se entranhe. Agora, lá que vai ficar muito bonito, isso vai.

  3. Encomendo já dois. Um para mim e outro para o mim outro.

  4. EV diz:

    Lindo! É um Pessoa a apontar para o céu!

  5. nanovp diz:

    Um Pessoa ao contrário, heterónimo, na companhia de mulheres…a coisa promete…

Os comentários estão fechados.