Ganda livro!

Tenho desde ontem à noite este novo “Os Maias”. O livro que li um número de vezes tal que seria embaraçoso dizê-lo pela metade. Não é um segredo que Eça é um dos meus maridos preferidos e conquistou esse lugar com “Os Maias”. Estava na altura de uma renovação de votos – e se o meu marido veio giro à cerimónia, de encarnado… nem sei se gosto mais dos bigodes se do monóculo!

Já tinha saudades suas, seu malvado de bigodes! Ora empreste cá a luneta para eu o ver melhor...

Já tinha saudades suas, seu malvado de bigodes! Ora empreste cá a luneta para eu o ver melhor…

Manuel Fonseca, este é para si, mas para dividir com Ilídio Vasco e Helder Guégués…

DESTINY

O meu primo foi sempre bom aluno. Filho do meu tio Manuel, irmão do meu avô, que ameaçava em voz muito séria pendurar-nos aos dois, pelas orelhas, no tecto do fumeiro, se em vez de para boas notas usássemos o cérebro para enchidos. Por alguma razão, diante da carantonha que ele punha, ríamos perdidamente, mas pelo sim pelo não, de mãos a tapar as orelhas.

Ora acontecia lá em casa não se brincar com as notas da escola. E era nosso dever trabalhar o suficiente para não precisar de explicações. Dá-las, era uma coisa, recebê-las, outra muito diferente e, há que confessá-lo, muito mal vista.

Todo o ramo do meu primo tinha o pensamento em números e o Técnico era onde desembocavam. O meu primo Manel, filho mais velho do meu tio Manuel – por sua vez filho do meu bisavô Manuel pois sempre fomos, como direi, muito originais com os nomes próprios -, já estava à data no Técnico. Na falta do irmão mais velho, ao meu primo, sobrava a prima para confidente. A prima era eu. Então.

Ele estava no 11º ano. Eu no 9º. Ele com dezasseis anos. Eu treze. Ele tinha uma fraqueza. A disciplina de francês à qual tirava a nota mínima permitida, doze. Portanto, hipotecado a francês, não poderia ter menos de catorze a mais nenhuma disciplina e isto já a contar com dois dezoitos de segurança para cumprir a média mínima aceite pelo meu tio. Azarucho do caneco, esbarrou num muro inultrapassável, Os Maias. O problema não era o livro. Era ele não conseguir lê-lo. Estava tão desesperado que veio ter comigo.
– Não consigo, não consigo!
– Mas porquê?
– Não sei explicar! é que não consigo…
– Dá cá isso, eu leio, depois conto-te e fazemos o trabalho juntos.
O trabalho, uma abébia da professora aos alunos que se espetaram no teste. Não havia escolha, teria de ser um ganda trabalho com uma apresentação e defesa irrepreensíveis – o inferno de qualquer adolescente em pânico queiroziano.

Os Maias que então conheci eram um catarpácio de mais de meio quilo. Era preciso ler depressa e bem. E a verdade é que há quem, pois foi um caso de amor à primeira vista. A questão não foi como é que eu acabo isto a tempo, foi o que faço quando chegar ao fim?

E o que fiz é parte da mitologia familiar: fui gozada durante anos.

Acabo de ler. Fico completamente nas nuvens. Preparo tudo tim-tim por tim-tim, em fichas de leitura, e continuo nas nuvens. Ensaio com o meu primo a apresentação até estar tudo na ponta da língua, e ainda estou nas nuvens. Não penso em mais nada. A existência transformou-se numa experiência aero-espacial: ou estou nas nuvens ou estou no céu. O meu primo não compreende e não quer compreender. Ao fim, será salvo por um perfeito catorze técnico e artístico…

Não sei se a voar, se a flutuar, vou ter com a minha melhor amiga e informo-a:
– Temos de escrever para Hollywood a dizer que este filme vai ser o novo E Tudo O Vento Levou.
– Qual filme?
– O que eles vão fazer quando lerem este livro, só preciso de traduzir isto para inglês. E mudar-lhe o título senão, não lhe pegam.
– Mas afinal onde está essa bomba?
– Está aqui: Os Maias. Mas vou chamar-lhe Destiny.

 

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Ganda livro!

  1. Genial esta sua história. Mas que vocação. É um encontro com o Destino. Em Hollywood ainda estão
    à sua espera.

  2. teresafont diz:

    Ai menina Eugénia,ganda história, pois. (só me aborrece um nadinha ter lido “Os Maias ” à socapa, que embora fosse tudo muito liberal lá em casa, havia uns livros fechados à chave, grande estimulo para a leitura. Tinha treze anos – não feitos em Janeiro, mas em Maio- li o segundo volume antes do primeiro e tenho ideia que percebi tudo, na volta era isso que não se queria) Porque é que me aborrece? Ora manias, não tem nada a ver com as respectivas idades, mais faltava, eu lá ligo a isso. Grandes Maias, grande texto. Hollywood é que perdeu, parvalhões.

    • EV diz:

      Já me ri da gaveta fechada à chave, Teresa. Sabe, ouvia O Retrato de Ricardina, na telefonia, debaixo das mantas, com um calor dos diabos pois o raio da coisa passava no Verão, e tardíssimo, tinha literalmente de segurar as pálpebras… Penso que terá sido uma reprise qualquer pois já não se falava de radionovelas – era genial!

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