Henry Miller

tropico

A minha edição, que já vem da colonialíssima Luanda, é igualzinha a esta, mas está mais bem tratada

Fuck everything! A escrita de Henry Miller vem-lhe de baixo. É, dir-me-ão, uma escrita do caralho. Não desminto à primeira. Mas se vamos conversar a sério, desminto mesmo. Não direi, como Erica Jong, que Miller era um místico, mas experimentem ler-lhe os livros e olhar para aquela ultrajante sexualidade. Se lermos bem entre fodas – e a graça da literatura está quase sempre entre fodas – vemos ternura, pequenos gestos, alegria, risos, a partilha de um copo de vinho ou de um táxi, fome, dinheiro emprestado, mil pinceladas que são muito mais do que as mil pinceladas de uma daquelas grandes e loucas telas de Pollock. É essa a escrita de Miller, nas ruas e quartiers de Paris, no metro de Nova Iorque, na Brooklyn do “Trópico de Capricórnio”.

Miller, desbragado, libertino, moderno, actualíssimo, é, afinal, um tipo nascido no século XIX. Americano até à medula, já devia estar arrumado, lá por volta de 1931, empregado dos Correios, e com um desastroso livro escrito. Estava casado, re-casado e falhado, ponto final.

Pois não. Tem toda a graça que ele tenha feito o seu Erasmus (chamemos-lhe assim) aos 40 anos, entre putas. Veio para Paris e, divagando por chatos e esquentamentos, percebeu logo que não tinha sido um faux pas. Confirmou que era o escritor que a vida, os empregos, as obrigações americanas tinham até essa altura negado que ele fosse.

Escreveu “Trópico de Cancer” em 1934. Quem lhe publicou o livro foi a bela, impúdica e amoral França. Não há como países católicos, com bom queijo e melhor vinho, para a liberdade. A América protestante, sempre a ladrar sobranceira contra os italianos e irlandeses da virgem maria, proibiu-lhe, claro, o livro. Tenho uma edição brasileira de 1963, com tradução de Aydano Arruda, de que não me queixo. Não me queixo também de ter lido em francês os “Quiet Days in Clichy”, numa edição de bolso da 10/18, com tradução de Gerald Robitaille, com data de 1973. Naquele tempo valia tudo.

Lembro que, cinco anos depois, em 1939, escreveu “Trópico de Capricórnio”, o seu único livro que li em português aqui da terrinha. Em todos estes livros, Miller era excessivo, gabarola, pricky, exsudante, alarmante e porventura arrogante. Autobiográfico, pintava-se como se gostava de pintar, a vir-se como um touro e com erecções graníticas. Era insultuoso, roubava dinheiro das carteiras das mulheres e mijava na banheira onde tinha metido três miúdas que engatara. É esse o seu delírio, o delírio sincero a que se entrega e para que nos arrasta.

Mas eu juro que essa euforia é só um véu. Experiência, angústia, amargura, um estúpido desejo de bondade, um coração a pulsar vida, irrigando de sangue um corpo que se quer entender com os outros seres humanos, de que ele escreveu que “formam estranha fauna e flora. À distância parecem insignificantes; de perto tendem a parecer feios e maliciosos. Mais do que tudo precisam de estar cercados de suficiente espaço – espaço ainda mais do que tempo.” Ora vão lá ver o final do vosso “Trópico de Cancer”.

Os ingleses, mais precisamente dois escritores sem inveja, foram os primeiros a reconhecer-lhe os méritos ou a originalidade. Lawrence Durrell, primeiro, atirando-lhe para cima com uma amizade incondicional – e que se fodam lá os críticos literários, a primeira coisa de que um tipo precisa é de um bom amigo, sobretudo se um tipo é o fucker que Miller era; depois, George Orwell ofereceu-lhe o tapete da sua autoridade e veio dizer que Miller era uma espécie de novo e malvado Whitman entre os cadáveres que enchiam as ruas, os jornais e as livrarias daquele tempo que via chegar a II Grande Guerra.

Parece, digo eu a armar-me em esperto, que Kerouac e a a outra malandragem de Beat Generation o reverenciaram. A bem dizer, e apesar das minhas tépidas simpatias kerouacquianas, não leio Miller no “On the Road” do amigo Jack. Mas leio Miller, as mesmas mamas e coninhas  judias, em Philip Roth. E muito, e muito femininamente, no “The Fear of Flying” de Erica Jong.

Fred Ward fingiu que era ele em “Henry and June”, filme de 1990, de Philip Kauffman. Sou sincero, não o reconheci.

Clichy

A minha é igual a esta – salvo seja.

 

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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6 respostas a Henry Miller

  1. EV diz:

    Estava aqui quando plasmou o texto, Manuel Fonseca, por isso já o li. É por este e por outros como este que é bom termos um blog.

  2. filipe diz:

    Se, quem se escandaliza ou teve uma epifania, ou ambas as duas – como diria a minha mãe – com as “cinquenta sombras…”, tivesse lido Miller, suavemente Eugénio, provocatoriamente Cesarinny, desbocadamente Bocage e Roth, certamente perceberia a falta de originalidade e o quão a senhora é, no fundo, uma menina de coro.

    • Tinha graça fazer-se o levantamento dos êxitos editoriais dos séculos anteriores. O mais certo é que, como acontece com as tão vendáveis “Sombras”, fossem livros simplórios e desenxabidos. Vou ver se encontro pistas na tão fértil net.

      • filipe diz:

        Admito que não li o livro, e neste caso, também não vi o filme, por isso confesso – minha culpa, minha tão grande culpa – é puro preconceito. Não sou adepto de, citando O’Neil, que tão bem as explica, “bestas céleres”. Desconfio sempre, por maioria de razão, da razão da maioria. Até aos vintes fui pouco dado a literaturas, depois tive a sorte de comprar as coleções da Visão e do Público (prosa e depois poesia) e toquei naqueles clássicos. Para o bem e para o mal, acabei por me educar aí. Miller estava lá, para me mostrar, aos vinte anos, que os sentimentos de culpa judaico-cristãos, podem muito bem ir morrer longe. E sozinhos.

  3. nanovp diz:

    Uma re-descoberta que valeu Manuel…afinal são só palavras, fortes e belas como a vida!

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