Mais um dia de vida (*)

O meu amigo Kapu and friends. O Manuel ficou cortado.

O meu amigo Kapu and friends. O Manuel está de cócoras e paradoxalmente à direita.

Ryszard Kapuscinski caíu-me no colo numa livraria perto de Varsóvia. Já lá vão uns anos. Os suficientes para perceber que viveu uma vida que gostava de ter vivido. Repórter, jornalista, escritor, poeta, fotógrafo mas sobretudo viajante, calcorreou as setes partidas do Mundo com um escrita perspicaz, escorreita e elegante. Li-lhe um bocado de tudo. The Emperor levou-me à Etiópia depois da queda de Haile Selassie; com Shah of Shahs acompanhei-o aos últimos dias da Pérsia e assisti à chegada de um Khomeini que só conhecia dos telejornais; em Travel with Herodotus fomos, com o grego no bolso, de Khartoum a Dar-Es-Salam, da Índia à China, curiosamente percursos que, em boa parte, eu próprio acabaria por fazer anos depois; com Ébano visitei África de lés a lés. E ainda me falta a União Soviética de Imperium que espera por mim na caótica pilha de livros que já não são de cabeceira porque me inundam todo o quarto.

Mas disperso-me. Porque queria mesmo era falar-vos de Mais um dia de vida. Kapuscinski em português pela mão da Tinta da China. Em bom rigor o livro ainda vai a meio mas já decidi que é a minha leitura deste Verão (talvez a par do colombiano  Barulho que as coisas fazem ao cair). São poucos meses de uma Angola que, em 75, espera a independência, em que milhares de vidas erram, esperançosas ou sem réstia de qualquer esperança, por uma Luanda que de pedra se vai fazendo de madeira à medida que crescem os contentores improvisados em que se empacotaria a vida de toda uma cidade. São estradas desertas de tão vermelhas, aldeias abandonadas, animais putrefactos, e sobretudo, ao longe, o ribombar da guerra que se aproxima e se faria quase eterna. Uma leitura imperdível e uma viagem a um tempo único que, aqui pelo blog, teve uma única testemunha.

Doutor Fonseca: se ainda não leu, corra para a livraria. Ou melhor ainda, combine lá um almocinho no Verde Gaio e eu hei de lhe levar um exemplar.

(*) republicado depois de apagado indecentemente por piratas informáticos que nem o nosso Nuno conseguiu travar.

 

Sobre Pedro Norton

Já vos confessei em tempos que tive a mais feliz de todas as infâncias. E se me disserem que isso não tem nada a ver com tristeza eu digo-vos que estão muito, mas muito, enganados. Sou forrado a nostalgia. Com umas camadas de mau feitio e uma queda para a neurose, concedo. Gosto de mortos, de saudades, de músicas que nunca foram gravadas, de livros desaparecidos e de filmes que poderiam ter sido. E de um bom silêncio de pai para filho. Não me chamem é simpático. Afino.
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