Mulheres na curva da estrada: diário de um editor

Post desaparecido nas catacumbas da web e agora recuperado

Ando a tentar aprender com Pessoa, com Fernando Pessoa e a sua corte, que é bem mais verdadeiro sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus. Há uns anos, quase dez, em 2006, julguei que o mais verdadeiro era publicá-lo canonicamente. Publiquei na Guerra e Paz editores “A Tabacaria” (em cinco línguas) que, sendo só um poema seu, é um livro completo, é um exaltado tratado metafísico.

Mas publicar canonicamente Pessoa é o mesmo que desembarcar em Bordéus. O verdadeiro Pessoa deve ser sonhado, pensei eu. Foi por isso que, em Novembro de 2009, decidi inventar este livro.

livro de viagem capa

Chamei-lhe “Livro de Viagem” e nele reuni uma selecção de textos de Pessoa e dos seus heterónimos sobre um único tema, o da viagem. Fui, com o Ilídio Vasco, meu designer gráfico, à procura de soluções e acabámos por paginá-lo assim:

livro de viagem pagina

O Ilídio escolheu imagens a preto e branco, nas quais introduziu um insidioso elemento a cores, e pôs, ao longo do livro, um barco azul que, partindo do canto inferior esquerdo nas páginas ímpares, e porque navegar é preciso, chegava, no final do livro, ao canto inferior direito dessas páginas. Ao longo de 154 páginas de poemas e prosas, do viajante imóvel ao viajante do lugar onde está, pondo em causa o bárbaro turismo contemporâneo, Pessoa aterrorizava as companhias áreas e as agências de viagens de todo o mundo contrapondo-lhes um lema e um desafio: para que precisa de viajar com o corpo quem tão bem viaja com a alma.

livro de viagem contracapa

Quando é que um editor sabe que os leitores gostaram de um livro? Quando o compram, claro. Mas sobretudo quando não deixam de o comprar. Um sleeper, esse livro adormecido que todos os dias desperta um novo leitor (um novo comprador, entendamo-nos) é, nos antípodas do bestseller – besta célere -, o livro que o editor ama.

Preguiçoso, demorei cinco anos a voltar a Pessoa. Mas, em cumplicidade com o Pedro Norton, voltei a esse local do crime que me fizera feliz. A continuada leitura de Pessoa (e a continuada leitura da leitura que dele fez Jorge de Sena) impôs-me um novo tema: o das drogas, do absinto, do ópio, da morfina, da aguardente, desse flagrante delitro de que Fernando Pessoa ele mesmo se ria. Nasceu, então, este livro em que as fotografias do Pedro se acolhem à sombra dos textos de Pessoa.

Capa-Pessoa

De tanto, no final do ano passado, ter encharcado este blog com doses violentas de propaganda deste “As Flores do Mal” com capa de madeira (uma capa que é mérito inteirinho do Ilídio Vasco), não direi agora nem mais uma palavra.

Ou, por outra, direi só que a ler, reler e tresler Pessoa para seleccionar “As Flores do Mal”, apareceram-me mulheres na curva da estrada. Deixo-me de estradas que já não estou para viagens. Fica só, para um livro que aí vem, a curva de uma mulher. Para a semana, conto mais.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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Uma resposta a Mulheres na curva da estrada: diário de um editor

  1. EV diz:

    O que gosto dessa viagem de pé de página a vapor…

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