Os dois meios nomes de um livro

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Estávamos, portanto, aqui. O Ilídio Vasco, designer da Guerra e Paz, a apontar um dedo veemente ao editor e a dizer que era a vermelho e negro que se faria este Fernando Pessoa, mas que precisava de um título.

Do outro lado de dois telefones, uma pintora e uma poeta: Ana Vidigal e Eugénia de Vasconcellos diziam-me, a 300 quilómetros uma da outra, que aceitavam o desafio. Cada uma delas se sentaria com os textos de Pessoa que eu lhes propunha. Cada uma delas responderia a esses textos com as rimas que a metafísica bastante de não pensar em nada porventura lhes suscitasse. Sei que, agora, numa curva da estrada (onde talvez haja um poço, talvez haja um castelo), estão as duas nesse estranho processo a que uns chamam amor outros criação. Só lhes peço: mandem-me notícias. Ou fotografias.

E não é que o Ilídio não se cala com os títulos? Um livro precisa de um título. Numa capa, o nome do autor precisa do contraponto desse nome da rosa que é o nome de um livro. E se o nome do autor divide a capa a meio, talvez seja melhor fazer uma de duas coisas: ou dividir ao meio o nome do livro ou dar ao livro dois nomes, um para cada metade da capa que a seta que é o nome do autor assim divide. Num segundo, um sopro de Bernardo Soares de um lado, um sopro de Fernando Pessoa do outro, o nome do livro apareceu. De um lado a solidão, do outro lado a traição. Da capa, o grafismo vai ser este:

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Vem aí um livro de conselhos a casadas, malcasadas e algumas solteiras. São conselhos heteronímicos de Fernando Pessoa (que tantas vezes terá sido heterónimo de si mesmo). Vem aí um livro de solidão, a solidão de mulher num homem que, se as queria, não sabia como havia de as querer.

P.s. – assoma-se, num dos meios nomes do livro, a notícia de um segundo livro. Será que pode haver dois livros num livro tão solitário como o tem de ser o livro que se chama Minha Mulher a Solidão?

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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4 respostas a Os dois meios nomes de um livro

  1. EV diz:

    Resumindo: há um Pessoa na Capa, um Stendhal em Ilídio Vasco, e um editor ao telefone. Quatro homens a fazer um livro para… as mulheres!

    • Só em Pessoa há mais de uma dúzia. E olhe que tem um Pessoa à sua espera – não sei se está sentado numa mesa da Brasileira, se a beber em flagrante delitro na primeira tasca que esteja aberta…

  2. nanovp diz:

    Pois, e isso tudo é porque o Pessoa não precisava de conselhos ou porque os homens acham que as mulheres é que precisam ???

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