Pela frente ou por trás?

Foi a primeira vez que assisti a um MTV Movie Awards. Em Los Angeles. Vi o que em Hollywood havia de estrelas, rising stars, shooting stars. Vi-as de frente, olhos nos olhos, mas talvez não tenha sido o choque frontal o que mais me impressionou. Depois do espectáculo, houve party. Comi um hamburger com Danny Glover e um gelado com Valeria Golino. Mas também não foi isso o que mais me impressionou.  Junto essas memórias e volto a um texto sobre um vestido. Ou a ausência de um vestido.

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“Escrever é Triste”, chama-se este blog. Prometi Tristeza e uma caneta e já me distraio com o decote de Madonna. Passou à minha frente, nos MTV Movies Awards, em Los Angeles, quando me convidavam para miminhos desses.

Sei muito bem o que é um decote. Reconheço o altís­simo sobres­salto que um esmagado e espevitado par de cativas pom­bas, chamemos-lhes assim, pro­vo­ca no escasso corpo de um homem. E é verdade que este é o decote de Madonna, mas experimentem pôr os olhos numas costas nuas! Nada se com­para ao ves­tido de finas alças nos ombros, estuá­rio aberto que se vem fechar sobre as cinco fun­di­das vér­te­bras do sacro – incom­pa­rá­vel é a geo­gra­fia de umas cos­tas nuas.

Prometi Tristeza e uma caneta e, afinal, espreito um decote. Não obstante, se há prazer que merece ser celebrado, é o das costas nuas. À frente, há uma planície venu­si­ana, certo? Mas atrás! Espa­ços aber­tos, duas rasas margens de um vale com um rio de vértebras ao meio. Ebúrneas e delicadas, castanhas e bronzeadas, de acetinado ébano, cantemos, de uma mulher, e logo desta mulher, as costas nuas.

Obcecado com a promessa de Triste Escrita, ainda não disse de quem são as costas. As costas, cósmicas, praia de Deus, são as de Sharon Stone. A dois metros de mim, umas alças, feitas de tecido “o rei vai nu”, seguram-lhe o vestido, que só começa onde lhe acabam as doces vértebras. Uma visão a tentar fazer-nos esquecer que estamos no ano de “Basic Instinct”, filme em que os nossos olhos se focaram na sombra da sua recôndita e faiscante arqueologia.

Qual­quer turista ataca as vistas frontais, para ver o garantido périplo que vai das gémeas tor­res Eif­fel, que Jean-Paul Gaultier desenhou a Madonna, à gruta de Las­caux, que Courbet pintou, à sua escandalosa maneira, chamando-lhe a origem do mundo. Mas as cos­tas nuas! As cos­tas nuas pedem a didác­tica tensão de um Oví­dio, a per­sis­tên­cia do lento apren­diz de uma “Ars Amatoria”.

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Viajemos, vértebra a vértebra, as costas de Sharon Stone. Mais breves do que um soneto, cinco versos cer­vi­cais levam-nos da cabeça à linha de ombros. Cinco ver­sos, cinco anéis de ouro e prata a pedir o escor­re­ga­dio beijo dos lábios, os dedos em cacho, como no “Cântico dos Cânticos” se vin­dimava em En-Gaddi.

Dois dedos abaixo, para cantar a vaga­bunda beleza torá­cica e lom­bar das costas nuas, ninguém consegue calar o rei Salomão. Nunca viu Sharon Stone e, apesar de rei, já implora: “Deixa-me ser o pas­tor que apas­centa os teus reba­nhos.” A estas este­pes atravessa-as o mais móvel dos túneis – nas firmes cos­tas, subliminar, subterrânea, há uma lírica trança gela­ti­nosa e óssea. Trança ou serpente que rever­bera a cada toque da polpa de uns dedos, a cada sopro de uns lábios, aos enca­ra­co­la­dos cabe­los que nela se rocem.

E, no entanto – Sharon Stone não é Galileu! – nem tudo se move. Estão imóveis e fun­di­das as cinco vér­te­bras do sacro, imóveis e fun­di­das as quatro vér­te­bras do cóc­cix. Imóveis e fundidas como sólidas amarras que segurassem o suspenso e oscilante jar­dim babilónico logo abaixo. Sem essas vér­te­bras resi­li­en­tes, nunca o poeta pode­ria ter dito: “Eu entro no meu jar­dim, eu como o mel, o favo.”

Cauda equina de tão ner­vo­sas raí­zes – ai jardim, já o ves­tido te esconde, para que melhor te adi­vi­nhe­mos. E por mais que o manto tape, dese­nham-se nele redondas montanhas, promessa de neves no Kilimanjaro.

O amado, que des­ceu em bei­jos cer­vi­cais, que cor­reu torá­cico, que vadiou no bál­samo lom­bar, que estremeceu no imó­vel rigor sacro­coc­cí­geo, suplica agora à amada: “Pela frente ou por trás?” E ela, voz de Inverno, rosa de Sharon, perdão, de Saron: “Ó meu amor, pela frente ou por trás, para mim tanto faz.”

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Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Pela frente ou por trás?

  1. Luís Casal diz:

    Esqueceu que não se deve juntar gasolina e fumar coisas, (ver Jean Luc Godard).
    Já é a 2ª, fiquei perplexo com aquela “coisa c/ lombadas, e assuntos de papelaria e assim” de misturar Pessoa com “estilo” AgitProp. Mas eu não gosto de falar de estilo, gosto de atirar ao alvo mesmo. Assim o que tem a fazer é não se por assim a jeito.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Obrigado Luis Casal por esta e outras magníficas intervenções – de grande inteligência – que tem feito neste blog. Diria que as suas intervenções estão muito acima do nosso nível, roçando o celestial. Faça-nos um favor, não desça à terra, deixe-se estar no céu a tocar harpa.

      • Luís Casal diz:

        Não tem nada que agradecer pelo nível celestial, a parte da inteligência agradeço eu, mas assim meio envergonhado já que não me serve o chapéu, só estava a dizer como devia fazer as coisas, mais nada. Para quem não gosta este ano a colheita foi boa por isso…

  2. teresafont diz:

    Até eu, de certo modo insuspeita-e mortal ó tão mortal que nem gostaria ver asas a disfarçar estas vértebras – fico fascinada, banza,vamos,com as costas da Stone, que mesmo com a porcaria do filme trouxe outra vez a Hollywood o que era ser uma estrela de cinema e não a ‘rapariga da porta ao lado’.
    Obrigada pelo texto e pela recordação. Que linda a Sharon. Neste caso, voto por trás.

    ps- aposto que esteve um nadinha desatento na cerimónia. Golino incluída. E às vezes, tristezas ou canetas, temos que pô-las, como aos boys, on the side.

  3. EV diz:

    O prazer de ver umas lindas costas nuas! Os homens são um mistério…

  4. ’tá visto que ainda não viu as minhas!
    😛

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