Sempre a bem da moral

1933 Nova Constituição

Não sei se foi o próprio Salazar a redigi-lo. Assinou-o, na qualidade de presidente do conselho de ministros. O decreto-lei 22469, publicado a 11 de Abril de 1933, rezava assim no artigo 3º:

A censura terá somente por fim impedir a perversão da opinião pública na sua função de força social e deverá ser exercida por forma a defendê-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, e a boa administração e o bem comum, e a evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade.

Limpinho, limpinho. Limpamente ético, como todo o pensamento politicamente correcto com que se algema, hoje, o pensamento sujo. Não sei se o prof. Salazar gostaria, mas tem hoje por companhia espíritos finos e rendados que pensam que a defesa dos “bons fins” justifica a intimidação para pré-esvaziar eventuais desvios. Talvez gostasse: afinal era manso, intelectual coimbrão, e não deixava que os seus fascistas pusessem pé em ramo verde – só excepcionalmente os tirava da cave.

Mas hoje há lá censura? Que ideia! E se houver uma censura climatizada, instalada, de protecção aos novos costumes, às novas verdades e novas morais, pugnando, claro, para reforço de uma progressiva força social que evite a perversão da opinião pública? A nova censura é comportamental.

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.

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Uma resposta a Sempre a bem da moral

  1. EV diz:

    Sabe, aqui há uns bons anos, talvez 15, saiu um artigo muito giro. O estudo revelava que os grandes criadores, pintores, músicos, escritores, intérpretes, enfim, o diabo, eram gente com comportamento desviante, e nem me refiro ao óbvio, mas ao comportamento do cérebro onde tudo foi medido e comparado, por exemplo, um competentíssimo intérprete e um genial intérprete de piano: o segundo tem um tal desvio que é um erro em relação à norma. O acto criativo e a excelência criativa são desviantes. Podem ser censurados à vontade. Mais cedo ou mais tarde serão a nova norma, e não tendem a pegar no lápis azul.

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