Deus é uma grande aranha

O ultimo de Nuno Júdice

O ultimo de Nuno Júdice

Não haverá melhor forma de homenagear um poeta do que outro poeta fazê-lo. Manoel de Barros, brasileiro desaparecido há quase um ano (novembro de 2014) com 97 anos, viu a sua alma encomendada, ou o que isso for, por Nuno Júdice, no seu recém-publicado livro ‘A convergência dos ventos’.

O poema, lindo, mas de uma seriedade própria de Júdice, que brinca a sério ou faz imponentes brincadeiras, imagina Manoel de Barros a subir ao céu pelos fios dessa grande aranha que é Deus.

Barros havia de gostar. À propósito das Metamorfoses de Ovídio diz ele que os seres humanos, já transformados em “pedras, vegetais, bichos, coisas” teriam um novo estágio em que os entes transformados “falassem um dialeto coisal, larval, pedral, etc.”

“Nasceria uma linguagem madruguenta, adâmica, edénica, inaugural – que os poetas aprenderiam – desde que voltassem às crianças que foram, às rãs que foram, às pedras que foram. Para voltar à infância, os poetas precisariam também de reaprender a errar a língua.

Mas esse é um convite à ignorância? A enfiar o idioma nos mosquitos? Seria uma demência peregrina”.

Assim munidos podemos entender a ideia de Deus como grande aranha. Deus é tudo o que tece e está nas coisas inesperadas. “Na rede dos teus versos”, como escreveu Júdice.

Mas o melhor é deixar o poema todo, desse encomendador de almas (e pedras, e campos, e rãs) que é Nuno Júdice. Um poema que se chama precisamente

Encomendação

Deus é uma grande aranha, pensou

manoel de barros. E agarrou um dos

fios da sua teia para subir, com

todo o cuidado de um tecedor

de palavras, até ao infinito. “E

onde está o deus que fabricou

tudo isto?” perguntou ao chegar

à floresta que nasce no cume

dos sonhos. E um dos pavões,

de sílabas coloridas com as tintas

vermelhas e roxas do crepúsculo,

respondeu: “Deus vive na rede

dos teus versos”. E abriu a sua

cauda onde as cores da madrugada

reflectiam, como num espelho

de ouro poliédrico, o rosto de deus.

 

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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3 respostas a Deus é uma grande aranha

  1. Flor diz:

    que maravilha! hei-de roubar este Nuno que sabe a barro 🙂

  2. EV diz:

    Encontro muito poema de Manoel de Barros na prosa de Guimarães Rosa – ou será o contrário? Ainda ontem estava aqui mesmo, no blog, a falar disto, da linguagem madruguenta com o Manuel Fonseca…

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