Dia de reflexões (II)

Era de noite e levaram
Era de noite e levaram
Quem nesta cama dormia
Nela dormia, nela dormia
(…)
Só corpos negros ficaram
Só corpos negros ficaram
Dentro da casa vazia
Casa vazia, casa vazia

José Afonso, Era de noite e levaram do álbum Contos Velhos, Rumos Novos (1969)

 

Vidas_19-Alvaro_Monteiro

Folheto da homenagem da Fundação Mário Soares ao meu tio (e padrinho) Álvaro, o mais combativo e único que depois do 25 de Abril se dedicou à política

Uma amável leitora deste blogue fez a gentileza de comentar o meu texto de ontem de forma agradável, dizendo que gostaria de ter tido um quarto de brinquedos e criadas de fora e de dentro. Eu respondi-lhe que o texto fora um retrato, um instante de um filme maior. Pus a hipótese de hoje haver mais retratos… e não resisti.

Houve um dia em que a minha irmã mais velha contou à mesa que quando a professora dela entrava se tinha a classe de levantar e estender o braço direito, paralelo ao chão. “A menina diga-lhe que isso é a saudação nazi e que os nazis perderam a guerra; talvez ela não saiba, mas já passaram uns 15 anos” – respondeu-lhe o meu avô.

A família assentiu. Porque concordava e porque era o meu avô a dizê-lo. Não sei o que fez a minha irmã (era menina para ter dado o recado) nem se a coisa deu mais problemas. Mas com isto tento dar uma noção da nossa vida. Como quando subia o elevador de Santa Justa, com o meu avô, em direção ao seu escritório de advogado, e ele se detinha diante dos jornais que no final do passadiço superior um ardina expunha numa parede branca. O vendedor, que já o conhecia há muito, indagava sempre:

– Então, soutôr, não leva nenhum.

E ele, sem se desmanchar, mas de forma a toda a gente entender o tom subversivo, respondia:

– A notícia que me interessaria, a vir, seria na primeira página…

Às vezes, levavam-no. A ele e a outros, ao meu tio, ao meu pai, a quem calhasse. Era pelo meio da noite. Batiam à porta secamente. A minha avó agarrava os netos, como uma ave a proteger as crias. Os homens resignavam-se e a minha mãe gritava com os pides.

Penso não ter tido maior vergonha em miúdo do que ouvir minha mãe chamar “filhos da puta” a alguém, para além dos usuais cobardes, energúmenos, assassinos. Um filho pequeno não sabe que alguém pode ser preso por ser boa pessoa; por dizer o que pensa; por abrigar outro perseguido que injustamente querem levar para a cadeia. Um filho pequeno não entende porque se exaltam, nem porque dizendo uma tia, católica apostólica romana, perante o quadro da noite cerrada “Valha-nos Nossa Senhora de Fátima”, logo a própria mãe reage também: “Logo essa! Essa também é do regime!”.

No dia seguinte ficavam os tais corpos negros – de azedume, de angústia, de preocupação e tristeza. E a minha tia corria à rua António Maria Cardoso, sede da polícia política, e fazia esperas, exigindo – com ou sem a ajuda da Nossa Senhora de Fátima – saber por que razão estavam os homens ali. Sempre sem sucesso, mas sempre com a mesma determinação.

Vinha o 5 de Outubro e a estátua de António José de Almeida, que fora presidente duas vezes. Lá ia a romaria. Havia conspirações, reviralhos e revoluções todas falhadas. Não, ninguém era do PCP – que apanhavam penas infindas. Passados dias estavam todos cá fora. Havia, sim, humilhações brandas para homens que gostavam de andar impecavelmente vestidos – o impor que ficassem de pijama, o impedir que fizessem a barba (tinham medo do suicídio, como se eles se sentissem culpados de alguma coisa ou não confiassem na queda do regime); o proibir os óculos, para lhes impedir leituras e a dignidade da cabeça levantada. Um dia, pouco antes do 25 de Abril, diria que foi na Páscoa anterior porque até já eu fora na ramona para o Governo Civil depois de um meeting anticolonial, ainda estes meus velhos, como o meu avô e o meu tio-avô e os seus amigos sonhavam de alto com o dia seguinte à libertação; com o regresso à democracia, se possível melhor e mais calma do que a por eles vivida no final da República. Nada sabiam dos militares; aliás achavam-nos serventuários do odioso regime.

A vida não era o mar de rosas da fotografia que ontem aqui deixei. Da varanda do quarto de brinquedos via as árvores a fazer vento, mas tinha medo da vida: era tenebrosa, escura, inquietante. Por isso me afeta tanto quando ouço dizer que estamos pior do que no tempo do Salazar.

Era de noite e levaram – tudo isto foi ontem e, apesar de tudo, mudou tudo.

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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3 respostas a Dia de reflexões (II)

  1. Julieta diz:

    Belíssimas imagens, as que o Henrique nos deixa, quando escreve. Talvez seja por isso que essa vida nos tenha parecido um mar de rosas ontem. Obrigada pela partilha e que a mão nunca lhe doa!

  2. Paula Santos diz:

    Obrigada.

  3. EV diz:

    “Logo essa! Essa tam­bém é do regime!” Por momentos pensei que estava a ouvir a minha avó, Henrique… que saudades.

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