Em que ponto da infelicidade te encontras?

Em cada adversidade da fortuna, já ter sido feliz é a mais infeliz variedade da desgraça Boécio, séc.V

velhice

Dantes, só muito raramente me vinham à cabeça as más recordações e então fazia um enorme esforço para não chorar convulsivamente, mordendo os lábios, as mãos, os braços, os livros que estava a ler ou, de noite, as almofadas da cama. Agora já nem vontade de chorar tenho, nem tão-pouco me chego a entristecer. Compreendo bem que a vida faz parte de um jogo cujo sentido ou importância raramente captamos, se é que ele existe; entendo que não foi a mim, especialmente, que me aconteceram coisas terríveis – eu sou apenas uma parte delas, a sua imagem viva, a sua recordação nos outros. Tudo nos aconteceu a todos; todos sofremos pelas mesmas causas que eu sofri e aqueles que viverem continuarão a penar devido aos males de que eu fui parte, e agora sou testemunha, muito para lá destes tempos em que ocorreram. Ao fim e ao cabo, talvez Deus ou Algo me tenha guardado para os viver, para que agora os possa interpretar, como era o desígnio dos profetas da Bíblia ou dos velhos sábios que conheciam por pequenos sinais as grandes desgraças que vinham a caminho.

Agora já não choro. A morte tornou-se para mim uma simples e pura trivialidade. A própria desgraça não passa, a meu ver, de uma fatalidade da história de cada um – que em conjunto faz a nossa história comum – e que afeta cada indivíduo de forma diferente, pessoal, quase íntima.

Não há ninguém feliz, salvo os pobres em espírito, os loucos e os inconsistentes. Cada um de nós, pessoas banais e normais, carrega uma infelicidade muito própria, ainda que tenha, aqui e ali, lampejos de paixão, de alegria, de euforia, de bem-estar, de satisfação…

(in Toda Uma Vida, as memórias da minha velha)

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom. Sem nunca me levar a sério - no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom (e barato).
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3 respostas a Em que ponto da infelicidade te encontras?

  1. Gosto muito mais desta sua vertente de cronista

  2. Luiz Miguel Alcide d´Oliveira. diz:

    Eis um assunto essencial: a infelicidade já foi, e então é uma recordação, ou vai ser, e nesse caso é uma construção do espírito. Passei muito tempo a pensar nisso e escrevi até um modestíssimo ensaio com o título “A Felicidade para Principiantes” que nunca foi editado e acabei por perder. Mas não é para lhe contar o que penso que estou a comentar. É para lhe dizer que gosto da sua reflexão, que a acho sóbria, séria e serena. Julgo que é o avesso do seu sentido de humor.

  3. Lurdes diz:

    Gosto de suas análises não alinhadas. Do humor com que olha para o nosso quintal… E gosto imenso de suas crónicas. Alias admiro imenso quem bem escreve na nossa língua.

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