Foi bonita a festa, pá

Fotografia de Neusa Ayres

Fotografia de Neusa Ayres

Ontem, na bonita festa, pá, de que fala Pedro Norton, a festa do lançamento do livro, magnífico, «Minha Mulher, a Solidão», e no qual tenho a alegria de participar, por não poder estar presente, enviei esta nota que foi lida pelo Manuel Fonseca. Para continuar a plagiar o Pedro, venham mais!

Gostaria muito de estar convosco agora, pessoal ou heteronimamente, para celebrarmos juntos esta melhor solidão, a pluralíssima solidão de Pessoa, na sua própria casa, e numa tão bela exposição de si-mesma: nem sei se este é um livro objecto ou se é pensamento substanciado em cartão, papel e tinta. Ainda considerei, inspirada por Pessoa, manifestar-me mediunicamente, mas depois teria de usar o corpo de um dos rapazes, o dos Pedros ou o do Manuel Fonseca, e não me apetecia falar com voz grossa – à Sandra e à Ana não faria a maldade de as sujeitar a uma ocupação ilegal…

Mas assim mesmo, presente numa nota só como no samba de Jobim, quero agradecer a alegria de participar neste projecto que é já uma concretização. Esta alegria é a de um retorno. De um ciclo que se fecha, completa. Deixem-me contar-vos.

Costumo dizer, por ser verdade, que tive uma esmerada deseducação. Cresci numa casa multi-geracional, à sombra tutelar da minha avó que, à semelhança do Deus da Cartilha, dizia onde se levantava e punha o sol todos os dias. A despeito desta overdose de autoridade, havia uma excelente e inesperada igualdade de valores de que me usei e ainda hoje uso: o trabalho da modista, a grandíssima menina Arlete com o seu coro de costureiras em roda, não valia menos do que o do ortopedista que me sentenciou a 12 anos de botas fosse Inverno ou Verão. É um facto que não se pode meter os pés para dentro, mas também não serve de nada ter as pernas direitas se é para ficar descascada como a Chiquita Banana e passar vergonhas nuas.

Ora, este princípio aplicava-se a tudo, sem no entanto, e vá-se lá perceber o raio do mistério, mexer nas hierarquias dos anjos. Neste tudo incluía-se também a literatura e a poesia numa altura em que eu ainda não sabia o significado de tais palavras. Um fado de Alain Oulman com poema de Camões e voz de Amália não valia menos do que uma cantata de Bach. De igual modo, Alberto Caeiro não era menos do que Platão, nem Álvaro de Campos outro senão o grande companheiro de Whitman. A isto acrescia que a minha avó cantava fado, tal como o meu pai. Ora a minha mãe que nascera desmusicada da garganta, encontrara na poesia a sua voz.

Os meus primeiros poemas foram, assim, todos escritos pela boca da minha mãe, ainda que fossem de Alberto Caeiro. A minha mãe lia-os, baixa e pausadamente, e a sua calma poética interrompia as obras no caos majestoso e vivo que era casa, a nossa casa com os seus fogões eternos e os tanques, a roupa eternamente estendida na corda ao grande ar do mundo. A infância é para sempre. E é a este lugar, de onde nunca completamente se sai, que pude regressar, e por esta vez ser eu a dizer Fernando Pessoa à minha mãe.

Por isto, agradeço-lhe, Manuel Fonseca, e pelo convite que me fez e tanto gosto tive em aceitar. E agradeço também pelo novo livro que Fernando Pessoa tão bem morto escreveu com velhos textos vivos; pelo objecto de beleza que é esse livro; e agradeço pela boa companhia em que me deixou: a de Ana Vidigal, a de Sandra Barata Belo, a de Pedro Norton, de Pedro Marta Santos e a sua própria companhia. Muito obrigada.

Sobre Eugénia de Vasconcellos

Escrever também é esta dor amantíssima: os lábios encostados à boca do silêncio, auscultando, e nada, esperando dele a luz que beije. É assim, pelas palavras se morre, pelas palavras se vive.
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4 respostas a Foi bonita a festa, pá

  1. Manuel S. Fonseca diz:

    Que texto tão bem e esmeradamente deseducado. Fez sorrir e rir uma sala inteira.

  2. Eu estava lá e ‘atesto’
    😀

  3. Senhora A. diz:

    Mas que bela nota! Agora já não me sinto só.
    Fernando Pessoa foi o meu “primeiro amor”… 🙂

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