Opus 9, número 2

Quando as mãos se estendiam pelo piano pensava sempre que aqueles movimentos eram impossíveis de repetir. Lá fora havia rouxinóis que cantavam e uma tileira enorme, com raízes tão entrelaçadas que pareciam nós de marinheiros, fechava a paisagem do quintal.

Junto à janela aberta da saleta, o Bechstein vertical, a armação em madeira – que se desafinava mês a mês, mas que dava o som romântico, íntimo, apaixonado que se pretendia – alargava a melodia com trilos e harmonias que me deixavam fascinado.

A minha avó tinha nós nas mãos. Pensava eu que os nós, em parte, se assemelhavam aos nós da árvore de Tília. Porém tal não a impedia de, com a mão pequena, chopinizar à sua vontade. Que inveja.

Que tempo demorei eu até tocar a peça de forma audível. Décadas! Já a minha avó falecera – e não nova – quando a minha tia, ouvindo-me no meu velho Petrov de quarto de cauda, puxou de uma lágrima e disse:

– A avó (que era sua mãe) é que tocava isso muitas vezes.

Eu já tocara centenas de vezes, esperando o reconhecimento – dela, do meu pai, de alguém que um dia me dissesse: “Sim, estás a tocar como a tua avó”. Mas tirando uma prima com ouvido mais apurado nunca houvera conseguido. Foi nesse dia, talvez há 20 anos, que jurei não mais esquecer o Nocturno Opus 9 nº2, sabe-lo de cor para qualquer circunstância.

E há qualquer coisa de mágico na música. Porque eu tenho a certeza de tocar melhor outras peças. Mais fáceis, mais difíceis, não interessa. Há no Opus 9 Nº2 coisas que eu sei que estão mal feitas; notas comidas; descidas entrecortadas, trilos mal feitos.

E, no entanto, é justamente dessa interpretação que no meu reportório amadoríssimo de péssimo pianista toda a gente se detém. É essa que gostam de ouvir.

E eu acho que, tal como eu, gostam de ouvir a minha avó. Deve ser ela a tocar a por mim.

 

Sobre Henrique Monteiro

Nunca fui um sedutor, embora amasse algumas mulheres hospitaleiras. Nunca fugi de um combate, mas sempre invejei quem, ao abrir as portas de um saloon, provoca pânico entre os bandidos. Tenho nas veias sangue jacobino, mas odeio revoluções e igualdades uniformizadoras. Sou pacato e desordeiro, anarquista institucional, maestro falhado, cantor romântico e piroso a quem falta tom.
Sem nunca me levar a sério – no melhor sentido da palavra, acho que apenas sou um homem bom
(e barato).

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6 respostas a Opus 9, número 2

  1. EV diz:

    Ó que raio de coisa bonita para dizer da sua avó, que toca por si… fartei-me de gostar desta sua homenagem.

  2. riVta diz:

    Coisa tão bonita de se dizer. (Em eco da Eugénia. Uma pura coincidência )

  3. Luiz Miguel Alcide d´Oliveira. diz:

    Li algures que em resposta à pergunta se acreditava em Deus, Rubinstein terá respondido “Oh não! Acredito em algo muito maior”. A música de Chopin, muitas vezes injustamente menorizado, e a interpretação da Sonata, esclarecem a resposta.

  4. Delicioso Já tinha lido e voltei a reler. Vale muito a pena, mesmo.

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