Os meninos-jesus da casa Fernando Pessoa

casa Pessoa a rir-se

Uma sala a rir-se

Ontem à noite, na casa Fernando Pessoa, aconteceu um daqueles momentos mágicos. Estava o Escrever é Triste quase em peso e veio uma coisa extra-terrestre que transformou toda gente em meninos. E como era na casa Fernando Pessoa os meninos eram todos meninos-jesus. Parece um bocadinho enjoativo, mas só a quem lá não esteve. Apresentava-se um livro, “Minha Mulher, a Solidão” e havia cem pessoas felizes por estarem juntas. Cumprindo a função de editor, abri a sessão fazendo os agradecimentos. Foi isto o que eu disse:

a sala

A Sandra Barata Belo invadida mediunicamente por Pessoa

Minha Mulher, a Solidão, de Fernando Pessoa

Muito obrigado por terem vindo à sessão de apresentação desta antologia de Fernando Pessoa a que a Guerra e Paz primeiro chamou “Minha Mulher a Solidão”, título que depois corrigiu ou acrescentou para “Conselhos a Casadas, Malcasadas e Algumas Solteiras”, dois títulos que, por sua vez, algumas forças subversivas transformaram afinal num “segundo livro concupiscente de corpo nu”.

Cheguei a pensar que, com este tempo, com a chuva que caiu ontem e ameaçava cair hoje, estaríamos para aqui, abandonados, eu, Fernando Pessoa e este livro de solidão. Mas não! Estou a ver nesta sala muitas das pessoas que eu hoje queria ter comigo. E é bom ter-vos aqui. Beijo efusivamente todos os meus amigos e amigas, e saúdo com respeitosa decência as amigas e amigos das minhas co-autoras Ana Vidigal e Eugénia de Vasconcellos, os amigos dos meus dois Pedros, Norton e Marta Santos, e da Sandra Barata Belo. Obrigado a todos por terem vindo.

Quero, ainda mais respeitosamente saudar e agradecer à Casa Fernando Pessoa. Cara Dra. Clara Riso, directora desta casa, deixe-me saudar a sua abertura. O ano passado trouxemos-lhe um livro de absinto, ópio, tabaco e outros fumos. Este ano invadimos-lhe esta casa, tão bonita, com virgens que estão longe de amar os maridos com que casaram, invadimos-lhe a casa com candidatos a marujos que só pedem que os espanquem a bordo dos navios. A verdade é que a Clara Riso nos atura esse pretenso desregramento, com largueza de espírito, gentileza e um sorriso. E afinal, bem vistas as coisas, esse desregramento não é nosso, por ser, todo ele, pedido de empréstimo a Fernando Pessoa. Obrigado Dra. Clara Riso, a si, a toda a sua equipa, com uma palavra especial para o apoio logístico da Dra. Fátima Campos.

Este livro nasceu em férias. Já há uns bons anos que eu faço férias com a minha mulher e Fernando Pessoa. No Algarve, e perto de Tavira, como o Fernandinho sempre gostou. É um ménage à trois, está dali a perguntar-me o meu amigo Manolo Bello. Sim, Manolo, é um ménage à trois literário, bem entendido, mas a verdade é que nascem sempre coisas e esta é a terceira antologia de Pessoa a ser dada à luz dessa maneira, se assim se pode dizer. A sexualidade de Fernando Pessoa ou as sexualidades dessa multidão que se reunia no corpo e na mente de Fernando Pessoa são um tema que académicos e críticos têm profusamente tratado. O que eu fiz foi juntar boa parte dos textos, poemas e prosa, que os especialistas assinalam como sendo os mais representativos da deriva amorosamente sexualizada do autor.

Fernando Pessoa não veio sozinho. Na solidão dele, neste livro, acompanham-no Bernardo Soares, Álvaro de Campos, o Barão de Teive e até uma senhorinha corcunda, tuberculosa, que devia passar o tempo à janela, aqui nesta Rua Coelho da Rocha, de Campo de Ourique. Como editor deste livro, senti que tinha de responder à altura. Convidei, por isso, uma poeta, a Eugénia de Vasconcellos, cuja poesia, já traduzida para catalão e para sérvio, mas ainda mal publicada em português, tem uma discursividade e um apego ao quotidiano que eu achei pertinente confrontar com Pessoa.

A Eugénia de Vasconcellos respondeu com palavras às palavras de Pessoa. Mas eu queria também que alguém lhe respondesse com os olhos e a mão, e não só com a mão e a voz. Lembrei-me de convidar uma pintora, a Ana Vidigal. Estava a olhar para um trabalho dela, de 2006, o de duas Anitas que engraxam sapatos, a que ela chamou Twin Peaks e disse: quero este olhar, quero as mãos que puxam brilho a estes sapatinhos. Quando abrirem este nosso livro e virem a pintura que a Ana ofereceu a Pessoa, perceberão que, por uma vez, a minha intuição de editor foi bem sucedida.

À Eugénia e à Ana beijo-as e abraço-as com pundonor e galhardia. Foram tão boa companhia que Álvaro de Campos já me telefonou a dizer que, afinal, já não tem pena de não ter casado com aquela rapariga inglesa, uma loura, tão jovem, tão boa, de que fala num poema deste livro. Tem é pena de não poder já casar com elas.

Os autores

Os co-autores do livro: eu, a Ana Vidigal, o Ilidio Vasco. Só falta a Eugénia de Vasconcellos. Bastava ter aberto o livro e ela saía do meio das páginas.

Uma palavra para dizer como foi feito este livro. Fi-lo com o Ilídio Vasco, meu designer gráfico. Não o teria feito com mais ninguém. Desta vez disse-lhe que queria uma capa de cartão encorpado e cru e que queria papel grosseiro e poroso. Disse-lhe também que queria uma estética à Rodchenko, vermelhos e negros fortes como os dos grafismos futuristas soviéticos. Dadas estas coordenadas, o meu gráfico tinha toda a liberdade para fazer o que quisesse. Ou seja, pensei eu para os meus botões, não tinha liberdade nenhuma. Mas teve. O Ilídio re-inventou este livro, página a página, e foi inovador na forma como concebeu a lombada com a costura à vista que já levou alguns compradores a dizer “Está estragado!”, ao que nós respondemos “está tão lindo!”

Nesta nossa aventura conjunta, o Ilídio e eu, tivemos de descobrir papéis – e foi ele quem teve a ideia de fazer o miolo do livro principal com dois papéis de luxo diferentes – e tivemos de descobrir soluções. Trabalhámos com três tipografias diferentes, a ACD imprimiu a pintura da Ana Vidigal que a Fine Print tão bem digitalizou. A DPS imprimiu os seis cadernos em papel de jornal. E, por fim, a nossa grande PUBLITO, a nossa principal tipografia, fez a capa, imprimiu as 168 páginas principais e, sobretudo, num trabalho artesanal que nos custou os olhos da cara, colou à mão todos estes elementos, como pintou à mão as três faces do miolo. A todo o pessoal operário, impressores, encadernadores,  operadores, pessoal dos acabamentos, o Ilídio e eu mandamos o nosso muito obrigado. Obrigado ainda a toda a equipa da Guerra e Paz. A Vânia Custódio conseguiu que hoje toda a Imprensa tivesse a notícia desta sessão, a Tânia Raposo acompanhou, com o Helder Guégués, nosso revisor, a revisão da obra, o Américo Araújo, nosso comercial, que já conseguiu esgotar o livro de madeira do ano passado, já me prometeu que este esgotava também, e o José Cardoso e a Carla Castela preparam-se para pôr a fortuna que resultar das vendas num off-shore para a reforma e velhice de todo o pessoal da Guerra e Paz.

os meninos-jesus

Um dos momentos menino-jesus da sessão

Quero, por fim, agradecer, aos três magníficos apresentadores. Talvez não saibam, mas eu escrevo num blog colectivo, que se chama Escrever é Triste. E, como somos uns Tristes, fazemos tudo tristemente juntos. Vamos juntos dizer poesia, vamos juntos jantar, vamos juntos dançar. Achei que para a apresentação tinha que ter comigo o nosso blog. A primeira ideia foi convidar três Pedros para falarem de um Fernando. Infelizmente, uma alteração de data, impediu o Pedro Bidarra de se juntar a nós, mas o Pedro Marta Santos e o Pedro Norton aceitaram, como aceitou a Sandra Barata Belo, que ainda agora encenou e interpretou a Carta De uma Desconhecida, de Stefan Zweig. Tenho apenas uma vaga ideia do que eles aqui vão fazer. Não sei se estou preparado. Mas estou a contar com a furiosa impulsividade vital do Pedro Marta Santos, com o encantador lirismo decadentista do Pedro Norton, e com a ingenuidade de quem acha que o mundo só agora começou da Sandra Barata Belo. Pelo muito que sei que todos vão gostar, é que já lhes estou a agradecer muito.

E agora, para a Casa Fernando Pessoa, para a Eugénia de Vasconcellos e para a Ana Vidigal, para os Pedros e para a Sandra, peço uma calorosa salva de palmas.

(Podem bater palmas aí em casa, também, se faz favor!)

Sobre Manuel S. Fonseca

O meu maior medo é que a morte seja tudo às escuras sem se poder ler. Pouco interessa deixar de ser humano, desde que não deixe de ser leitor. Ler é do mais feliz que tenho. Até porque escrever é triste.
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10 respostas a Os meninos-jesus da casa Fernando Pessoa

  1. EV diz:

    Viva! E palmas para si? Palmas…

  2. adelia nunes da fonseca riès diz:

    O livro promete 🙂

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Sei que pode soar a elogio em causa própria, mas não resisto: o livro está uma delícia…

  3. rita vaz pinto diz:

    Manel parabéns pelo livro, pela apresentação, pelas palavras, por aqueles momentos. Achei tudo delicioso. Fiquei com uma certa inveja da carta do Pessoa!

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Rita, obrigado por ter aparecido e pelo apoio. Vou comunicar a sua inveja ao Senhor Fernando. Cheira-me que ele não vai deixar a sua caixa de correio em paz.

  4. Nunca pensei que ser triste podia dar tamanha alegria ao ver tantos tristes juntos. Foi um momento único. Vai certamente repetir-se de mil outras maneiras. Mas este já ninguém me tira.
    Parabéns a todos. O trabalho é maravilhoso e a apresentação não lhe ficou atrás.

  5. Pedro Norton diz:

    E o Manolo, ali a bater palmas, parece o S.José. O homem ainda acaba no benfica.

    • Manuel S. Fonseca diz:

      Pedro, o Manolo ainda tem é de escrever a história da vida dele. Já viu a apresentação que nós faríamos dessa Guerra e Paz galaico-portuguesa?

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